Corisco arranja namorada, vira comerciante, mas acaba voltando ao cangaço (Parte3)

Após receber autorização do capitão Virgulino Ferreira para deixar o bando, Cristino acreditou na possiblidade de seguir outro caminho, a carnificina dos primeiros combates talvez tenha causado impressão muito forte ao ex-soldado do Exército, agora ex-cangaceiro, mas ainda um homem errante e perseguido. Cair na estrada, mais uma vez, pareceu ser a sua sina.


Imagem ilustração: artesanato nordestino


Cristino se desloca pelas caatingas feito uma sombra, como cobra que dorme tarde e acorda cedo; às noites reservadas para marchas forçadas, um hábito adquirido no Exército e prática comum no pouco tempo que passara no bando de Lampião. Mas para onde?


Havia a possiblidade real de trabalho em Alagoas ou mesmo na Bahia. Ao chegar a Pariconha, acredita que a vida voltará a ser a mesma, de trabalho duro na semana e bebedeira aos sábados. Mas a realidade havia mudado; mesmo estando entre gente conhecida e parentes nenhum fazendeiro lhe abre as portas, nem os conhecidos ou mesmo os parentes.


Àquela altura, até o mundo mineral já sabia que Cristino estivera debaixo do chapéu e vivendo das armas. E mais grave: estivera a serviço no bando de Lampião. Até os irmãos lhe disseram não, lhe viraram as costas.


- Sim, a família tinha vergonha e até evitava aproximação. Diziam à boca pequena, sem que ninguém disfarçasse desconforto com sua presença e até o hostilizasse.


De novo na estrada, Cristino segue para a Bahia, onde encontra abrigo entre primos em Salgado do Melão. Passa a viver do trabalho braçal, aproxima-se de um primo chamado Hortêncio com quem troca ideias e afinidades. E este, dá a senha:

- Seguinte primo, vez por outra pratico uns assaltos e furto animais, confidenciou Hortêncio.


Cristino deixa o Raso da Catarina e segue com os primos Hortêncio e Cícero Nóia até o sul da Bahia, onde encontra abrigo na propriedade de um certo Alfredo Barbosa, coronel poderoso da região. Vira intermediário dos negócios de Barbosa, passa a administrar uma bodega que não é sua e vira feirante. Evidentemente havia mudado de nome e agora passa a se chamar “João Batista”.

Cristino, o Corisco, posa para fotografia durante reportagem de Benjamim Abraão, no Raso da Catarina


E Cristino já tinha o apelido de Corisco, coisa que ali ninguém sabia. Escondendo-se atrás do nome de “João Batista”, prospera nos negócios de bodegueiro e feirante, mas sempre se mantendo arredio, pois pesava contra ele mandados de prisão por deserção do Exército e, também, assassinato de um cabo de Polícia.


Sem mais nem menos, começam a circular boatos de roubo de animais. E onde há fogo há fumaça: os boatos apontavam para Hortêncio, que certamente atuava em dupla com o primo.


O roubo de animais aumenta, os primos são os principais suspeitos e a mais valia dos furtos vai para o tal coronel Barbosa. Ao mesmo tempo, muitos já sabem do seu passado recente no bando de Lampião.


- Tudo fuxico desse povo, conversa de quem não tem o que fazer e vive de difamação, assegurava Cristino.


Eis que Cristino retorna às farras de fim de feira e à pancadaria. Está metido, de novo, em confusão. O subdelegado do lugar é chamado, Cristino recebe “voz de prisão” e está de volta ao xadrez por arruaça e solto no dia seguinte.


O coronel Barbosa que o havia protegido, resolve descarta-lo, enviando para ficar sob a “proteção” de um outro coronel, de nome João Fonseca.


Em meio a tanta turbulência, prisão por arruaças, suspeitas de que havia sido cabra de Lampião e ladrão de animais ao lado dos primos, algo de bom acontece a Cristino:


Está namorando uma moça do lugar e, até, elaborando planos para casar.


Era a chance de felicidade e de uma vida normal; a moça era parente de deputado e tudo podia se arranjar. Mas o contrário acontece: sua vida pregressa não é mais segredo para polícia, o cerco se fecha e Cristino, mais uma vez, deixa tudo para trás: namorada, o pequeno comércio e uma casa recém construída para construir família.


Quando a roda gira para trás, as coisas dão erradas sempre no pior momento. De novo em fuga, seu primo Hortêncio acaba preso em Juazeiro. Interrogado, nega participação em furto de animais e associação ao cangaceiro Corisco. Mas o outro primo, Cícero Nóia é preso, não aguenta o tranco e delata Cristino.


- João Batista é nome fictício, homem de negócio era só fachada e que o primo realmente se chamava Cristino Gomes, que pertencera ao bando de Lampião e que atendia também pela alcunha de Corisco, revelou Nóia à polícia.


Ao começar o ano da graça de 1928, alvo de implacável caçada, Cristino Gomes está de volta ao cangaço e à frente de um pequeno bando, formado por parentes, incluindo Hortêncio que passa a atender pela alcunha de Arvoredo.


Corisco forma seu próprio bando


A malta é inicialmente formada por Corisco é composta pelo primo Arvoredo, José Valério, Pedro Gomes, o Piroca ou Pará; Emídio Ribeiro, o Beija-Flor e Rafael Gomes, irmão de Arvoredo.


O bando passa a ter atuação em Chorrochó, Santo Antônio da Glória e Rodelas. A tática de Corisco posta em prática é a de guerrilha, aprendida nos tempos de quartel e na pequena temporada no bando de Lampião: Atacar e esconder-se por semanas.


De posse de informações seguras, a polícia comandada pelo delegado Noberto Xavier, aporta na casa dos pais de Hortêncio – o Arvoredo.


Seu Faustino, chamado de “Pai Velho” e Dona Iaiá, pais de Hortêncio e tio de Cristino, enfrentam sessões de espancamentos e “Pai Velho,” o mais torturado, permanece firme e não abre o bico. A polícia vai embora deixando para trás destruição e chagas abertas, tal a brutalidade aplicada.


Semanas depois, Cristino e Hortêncio estão de volta à casa de “Pai Velho”. Ao ver o velho Faustino Gomes e Dona Iaiá, combalidos pela tortura, Arvoredo chora urra em voz alta de ódio jurando vingança, e cabe a Cristino reagrupar os primos, organizar e levar a cabo a vindita.


Não demora muito, três dias depois Cristino e seu pequeno grupo armam emboscada num povoado chamado Salgado do Melão para a volante que supostamente barbarizara os pais de Hortêncio. De armas engatilhadas, Corisco dá o sinal:


- Pou!


Soa o primeiro disparo do ex-atirador do Exército, agora chefe de bando, e ali mesmo naquela refrega, três soldados estão estirados no chão. Na semana seguinte, novo entrevero ferrenho, e um sargento de nome Anacleto tomba morto com tiro certeiro na testa.


A escalada de Corisco no cangaço agora é pra valer. (continua)


João Costa. Siga: @joaosousacosta

Fotos: Benjamim Abraão.

Fonte de consulta: Corisco – A sombra de Lampião, de Sérgio Augusto Dantas.





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