Corisco em 1937: alcoolismo, decadência e protagonismo de Dadá no comando de cangaceiros

João Costa

A fama de Corisco como cangaceiro o precedia. No ano da graça de 1937 seu nome se agiganta pelo Nordeste afora através da literatura de Cordel, notícias de jornais e revistas; o bandoleiro acumula joias e dinheiro e passa a demorar-se em coitos seguros, expunha-se pouco, esporadicamente o capitão Virgulino o convocava para razias comuns, geralmente empreitadas de alto risco.

Imagem: Bando de Corisco(E) em posição de tiro para o fotógrafo Benjamim Abraão


Mas dois problemas atormentam Corisco e sinalizam não ter solução: o alcoolismo que começa a afetar o raciocínio e sua capacidade de liderança e a incompatibilidade de convivência em grupo entre Dadá e Maria Bonita.


Já não havia mais segredo que os dois chefes incontestes do cangaço, Lampião e Corisco, não atuam juntos com tanta frequência exatamente em função das arestas femininas entre Maria de Déa e Sérgia Ribeiro, relataram mais tarde cangaceiros sobreviventes e a própria Dadá.


-Oh! Mulher chata! Maria de Lampião tinha uma pompa danada, era uma coisa; tinha tempo que ninguém aturava! E não tinha como curtir o abuso de Maria do Capitão, chegou a relatar Dadá em depoimentos históricos.


As temporadas longas em coitos seguros provocavam o ócio e isso levava Corisco a porres homéricos e ao esgotamento emocional e físico – situação que levava Dadá a se impor com autoridade no bando e esse comportamento assertivo de Sérgia Ribeiro, num universo de homens culturalmente acostumados à posição de mando sobre as mulheres, torna a permanência de cangaceiros no grupo com pouca duração.


Dadá nunca escondeu seu mau humor, e em sendo a mulher do chefe, isso só acarretava pepinos para Corisco resolver. As ações de saques declinavam, levando cangaceiros ferozes e também mais ambiciosos do bando a buscarem alternativas.

Relâmpago, Vinte e Cinco, Balão, o primo Arvoredo, Patativa e Quinta-Feira, Moita Brava e Criança, deixam o bando.


Corisco entra em declínio devido ao alcoolismo e Dadá(D) assume a condução do bando


Foi o caso do cangaceiro Manoel Cililio, o Jurema, também primo de Corisco, que deixou o bando para seguir Arvoredo, e quando este morreu, assumiu o comando promovendo assaltos generalizados a pequenos povoados sem recursos; Jurema e mais dois comparsas tiveram suas vidas encurtadas, tombam a tiros em confronto com uma pequena milícia de apenas três civis.


Sérgia Ribeiro daria outras explicações para o declínio do bando do marido


- O cabra andava com Corisco e depois aparecia dizendo: eu vou andar sozinho agora. Recrutava outros, a derrota do bando foi essas moquequinhas, relatou Dadá a vários pesquisadores muitos anos depois do cangaço.


Furtivo em seus deslocamentos e manobras, Corisco ressurge em cena nos arredores de Mata Grande, não encontra facilidades, é cercado pela volante do Joaquim Grande, sai em desvantagem humilhante deixando para trás abandonada no coito muita munição, mantimentos e dinheiro.


Enquanto a polícia de Sergipe segue de moral baixa exatamente por conta da cumplicidade dos chefes militares e do governo com banditismo, do lado vizinho, em Alagoas, o pau come solto; as volantes não dão descanso a Corisco, nem aos subgrupos de Português e de Luiz Pedro.


Nesse cenário de guerra, entre tiroteios, fugas e retiradas longas, Corisco se retira de campo pois Sérgia Ribeiro está grávida pela segunda vez e pronta para parir o bebê de nome Maria Celeste; fato que vira inclusive matéria de jornal.


A Notícia, numa edição de novembro de 1937, reporta que “Corisco enviou, na semana passada, uma filha ao senhor Sebastião Medeiros, para criar”. E esse gesto na vida de Dadá não seria o único.


Mas antes do ano de 1937 terminar o Getúlio Vargas dá um golpe de estado, fecha o Congresso Nacional, e uma das diretrizes da nova Ordem é dar combate duro ao cangaço, que passa a ser considerado inimigo do Estado Brasileiro e não apenas dos sertanejos desprovidos dos mais elementares direitos.


Sargento Aniceto Rodrigues, cabecilha de volante e habilidade no manejo da metralhadora Bergmann


A pisada agora é outra, surge no teatro de guerra a volante do tenente João Bezerra e sob seu comando um certo sargento Aniceto Rodrigues, conduzindo um armamento novo e mais letal que os demais. A famosa submetralhadora Bergmann MP-18, de 7.92 mm 1928, batizada por cangaceiros e volantes como “costureira” para uns ou “Matraqueira” para outros.


Já no início de 1938, tais volantes se mostram exitosas e sinistras nos combates; num tiroteio que durou 15 minutos, a volante do sargento Aniceto despacha para o outro mundo os cangaceiros Zé Velho, ou Pontaria, e Cícero Garrincha, o Catingueira; poucos dias depois a volante de João Bezerra elimina Serra Branca, Leonora e Ameaça nos arredores de Piranhas – e o hábito de cortar cabeças de cangaceiros mortos tinha virado regra.


Virgulino Ferreira e bando seguem saqueando vilarejos onde há comércio relativamente pujante, ao passo em que Corisco despacha bilhetes extorquindo fazendeiros ao longo do rio São Francisco e também ganhando notoriedade.

O Jornal de Alagoas numa edição do mês de maio traz em destaque uma reportagem sobre o clérigo José Bulhões, vigário de Santana de Ipanema, em que ele é descrito como “compadre do cangaceiro Corisco” e um desfecho surpreendente: além de compadre do “Diabo Louro”, o padre cria um filho do casal Corisco e Dadá de nome Sílvio.



Fonte de consulta: Corisco – A sombra de Lampião, de Sérgio Augusto de S. Dantas.

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