Decisão do presidente João Suassuna: Da prisão à morte do cangaceiro Chico Pereira

Jose Tavares de Araujo Neto


Em setembro de 1928, o tenente Manoel Arruda era então delegado de São João do Rio do Peixe quando recebeu a incumbência do presidente João Suassuna de prender o cangaceiro Chico Pereira, que há pouco tempo havia conseguido se safada espetacularmente de um cerco da força volante comandada pelo tenente Manoel Benício, na fazenda Pau Ferrado, munícipio de Pombal.


Chico Pereira transitou pelo bando de Lampião, tendo organizado e participado do ataque a Sousa


Por um golpe de sorte, o tenente Arruda conseguiu êxito à sua missão muita antes do que poderia imaginar, justamente na cidade onde se encontrava quando recebeu a mensagem do governador do Estado. Por uma dessas coincidências da vida, Chico Pereira havia ido participar das festividades da padroeira de Cajazeiras, quando foi identificado pele tenente Antonio Salgado, delegado da cidade, que imediatamente comunicou ao tenente Arruda, que assim narrou o fato:


“À tarde, passeamos de automóvel e paramos no bar de Manoel Nóbrega, pegado com o cinema de Bichara, João Bichara, pai de (Ivan) Bichara. Eu estava sentado na banca quando chegou Salgado e disse:


- Arruda, vem cá.

Eu fui chegando na porta e ele disse:

- O homem está aqui.

- Que homem?

- O Chico Pereira.

- Aonde?

Ele disse: - Na igreja. Você fique aqui que eu vou chamar José Guedes.


Salgado retira-se e eu vou levantando a vista e lá vem Chico Pereira. Eu só tinha visto uma vez aqui em Pombal. Um sujeito louro, muito loiro, de costeleta, bem alto, corado, vermelho, era aloirado, bem vermelho. Trajava muito bem, vestia calça de casimira listrada, paletó azul marinho, chapéu lebre, bengala. Vinha de braço com uma moça. Uma bela jovem, uma mocinha lá, desavisada. Eu estava à paisano com o meu revólver, um revólver que eu tenho aí, um 38. Ele vai subindo a calçada para entrar no cinema com a moça, de braço. Eu me encaminhei, dei a mão a ele:


- Como vai Chico Pereira?

Ele disse: - Como vai o senhor?

Eu fiquei pegado na mão dele e disse: - Você agora tá preso, por ordem do Chefe de Polícia.

Ele disse: - Quem é o senhor?

- Tenente Arruda - Puxei o revólver.

A moça correu. Eu não sei nem que direção tomou.


Então eu fui com a mão esquerda para pegar o revólver dele. Ele pulou. Mas eu tinha pegado na mão dele assim. Dei um golpe. Eu lacei o braço o braço dele assim. Foi uma sorte. Eu arrebatei o revólver dele. Um revólver cabo leque. Eu puxei com a mão esquerda e arranquei com a bainha. Ele ficou com o cinturão e trinta e nove balas no cinto dele.


Eu disse: - Não estremeça que você morre!

Mas não podia nem botar o dedo no revólver porque ele estava com a bainha.

Nesse ínterim, o Costa pulou na frente. O Salgado já tinha se encontrado com o Costa:

- Não estremeça, bandido!

Eu disse: - O homem está preso, desarmado e garantido, Costa.

Lá vinha o João Fernandes, o guarda-costas dele avançando e o José Guedes com o cabo tomaram a frente dele. Tomaram o revólver e a pistola dele. Eu encaminhei para a cadeia e mandei formar uma guarda.”


João Suassuna implementou uma intensa campanha de combate ao cangaceirismo, notadamente após o ataque do bando de lampião à cidade de Sousa. Graças a colaboração do coronel Jose Pereira, Lampião e seu bando foram enxotados definitivamente da Paraíba, em cujo território tinham seu sobrinho Marcolino Diniz como seu maior protetor. Entrava na conta de Suassuna a participação das forças volantes paraibanas na intensa perseguição a cangaceiros no vizinho Estado de Pernambuco, inclusive no memorável combate do Tenório, que resultou na morte de Levino Ferreira, irmão de Lampião. Também entra nessa aritmética a eliminação dos temíveis cangaceiros Meia Noite e Luiz Leão, além da prisão de Chico Pereira, a qual estamos discorrendo.


Apesar dos esforços desprendidos e enormes gastos financeiros com contratação de homens e aquisição de armas, munições, fardamentos e víveres, havia muitas controvérsias em relação ao efetivo resultado positivo da campanha. Os críticos diziam que o coronel Jose Pereira realizava perseguições seletivas, protegendo os bandoleiros do seu interesse.


A respeito da prisão de Chico Pereira, dizia-se que teria sido uma solução encontrada por João Suassuna para fazer cessar rumores, cada vez mais crescentes, indicando que esse cangaceiro e seu bando estariam praticando diversos crimes em Estados vizinhos a mando dos fazendeiros Anacleto (Cletinho), Pio e Antonio Suassuna, irmãos do presidente. Apesar de Chico Pereira ter processos em aberto na Paraíba, nas comarcas de Sousa, Princesa e Pombal, logo que ele foi preso o presidente do Estado cuidou de recambiá-lo para o Rio Grande do Norte. O Estado era governado pelo parente de sua esposa, Juvenal Lamartine.


Na manhã de 28 de outubro de 1928, a proximidade da cidade de Currais Novos, Chico Pereiro foi vítima fatal de um suposto acidente automobilístico. Mais tarde, soube-se que, na verdade, tratou-se de queima de arquivo, crime este planejado na sede do governo do Rio Grade do Norte, cuja execução foi entregue ao encargo do tenente Joaquim de Moura.

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