Desertor do Exército e cangaceiro, Corisco adota a tática “susto e terror” nas caatingas

Por Joao Costa

Após o ataque fracassado a Mossoró(RN) Virgulino Ferreira da Silva e seu bando enfrentam pressão e perseguições implacáveis na Paraíba, onde o governador João Suassuna coloca sua cabeça a prêmio; o Ceará está fora de questão para razias porque em Juazeiro do Norte reside praticamente toda a sua família e em Pernambuco, o ultimato dado pelas autoridades surte efeito e em agosto de 1928 Lampião desembarca, pela segunda vez, na Bahia.


Imagem: Bando de lampião na Ribeira do Pombal, Bahia. 1928. (Foto. Alcides Fraga)


Lampião se conduz inicialmente com certa discrição em território baiano, mas suas relações com o famoso coronel Petronilo de Alcântara Reis já é do conhecimento de alguns chefes políticos; neste clima de rearrumação, Cristino Gomes da Silva, Corisco, reaparece em cena em companhia do primo Hortêncio, o Arvoredo, pede reingresso no bando, é aceito e, surpreendentemente, torna-se a sombra de Lampião em encontros com coronéis, padres e chefes políticos.


Cristino está de volta à companhia de velhos companheiros como Luiz Pedro, Mariano, Antônio Juvenal, o Mergulhão, Ezequiel Ferreira e uma nota curiosa surge na imprensa da Bahia:


A matéria relata que o bando é composto por oito homens, o rei-do-cangaço se faz acompanhar de Corisco, Moderno, Esperanças(luiz Pedro), Mergulhão, Pernambucano, o Mariano, Ponto-fino e Arvoredo, bem municiados e “um dos bandidos usa divisas de cabo e é ordenança do chefe. Este tem o nome de guerra: Corisco! Diz o corpo da matéria do jornal Era Nova, em 1928.


Não demora muito é a o governo despacha para a área de conhecida atuação do bando o tenente João Cândido Pinto, cabecilha de uma volante que tem como integrante um certo sargento José Joaquim de Miranda, o “Bigode de ouro”; militar pouco discreto, que por onde passa deixa recados.


- Não tenho medo de cangaceiro nenhum! E ninguém vai me impedir de prender ou matar esse Lampião e o tal Corisco, ou qualquer cabra que aparecer pela frente.


Não demora muito e o encontro fatal acontece. O sargento “Bigode de Ouro”, demonstra que pretende mesmo cumprir o prometido.


- Bando de filhos de uma égua, aqui é a Bahia, e satanás espera por vocês no inferno, seus filhos de chocadeira!


Abre-se o inferno; chove balas de fuzis de todos os lados, Lampião, ardilosamente, divide o bando em dois; o sargento Miranda, Bigode de Ouro é o primeiro a tombar crivado de balas, em seguida mais dois soldados e não resta alternativa à volante a não ser abrir em debandada.


As volantes baianas vacilam nas diligências; o ânimo está em baixa por conta do ocorrido a Bigode de Ouro, mas o governo manda acochar, e não demora muito novo confronto.


Num povoado entre Juazeiro e Jaguarari chamado Abóbora, é dia de feira e de festa; Lampião e seu bando se fazem presentes e estão engalfinhados com as moças do lugar num forrobodó.


- Macacos se aproximando! Alguém dá o alerta.


O inferno de balas está volta, o pipocar dos tiros lança fumaça no ar em pleno dia de feira; a população em polvorosa busca abrigo em suas casas; o frege com muita cachaça, sanfona e zabumba em que Lampião e seus cabras se divertem se desfaz rapidinho, Virgulino escapa pelos fundos da bodega tendo Corisco ficado na retaguarda dando cobertura ao capitão, que ganha distância do teatro de guerra.


Cristino Gomes, Corisco, lugar-tenente de Virgulino Ferreira, Lampião


Relatam que é a partir desse tiroteio que Cristino passa a adotar a tática “susto e terror”. Corisco gira, salta, esbraveja e dispara ao mesmo tempo.


- Macacos nojentos filhos de uma égua vocês não são de nada! Ao mesmo tempo em que insulta, Corisco sai do abrigo em que se encontra e parte para ofensiva.


Dias seguintes a imprensa já traz em destaque a ação daquele que viria a ser um dos mais famosos cangaceiros de todos os tempos. E reporta:


Corisco era quem tomava a iniciativa dos combates, o tenente Odonel, cabecilha da volante, fez o que pode até ser atingido por um balaço disparado por Corisco em dobradinha com Ponto Fino atacando a volante pelos flancos.


O próprio tenente Odonel em seu relatório ao comando informa: “Corisco e Mergulhão atuavam peito a peito com a força que avançava corajosamente”.


Nesse tiroteio Mergulhão sentiu firmeza se expôs e terminou levando um tiro de fuzil da volante; é socorrido pelos comparsas; mas o ferimento é grave demais, morre e é enterrado em cova rasa.


Além de empreender forte caçada a Lampião, a polícia baiana distribui entre os cabecilhas de volante a ficha de Cristino Gomes da Silva, ex-soldado franco atirador do Exército, desertor, e agora chefe de bando de cangaceiros que atende pela alcunha de Corisco.


Fonte de consulta: Corisco – A Sombra de Lampião, de Sérgio Augusto de S. Dantas.

Lampião – a Raposa das Caatingas, de José Bezerra Lima Irmão.

Foto: Lampião em Ribeira do Pombal. Virgulino Ferreira, Ezequiel (irmão de Lampião), Moderno, Luís Pedro, Antônio de Engrácia, Jurema, Mergulhão e Corisco (Foto feita por Alcides Fraga e restaurada por Rubens Antônio)

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