Dia do perdão: “Você sabe que foi de emboscada!” Disse Dadá a Zé Rufino no último encontro

Ao conhecer e comparar os relatos da história do cangaço que emerge de muitas fontes, o simples leitor tem prazerosa dificuldade em separar fatos e ficção. E isso é bom, porque nos dá escolhas para desenvolvermos simpatias por personagens tão controversos. E Dadá de Corisco, que emerge como vítima, cresce como cangaceira, agiganta-se como heroína no final da vida, deixa legado incomparável. O relato a seguir, a partir do ponto, foi garimpado de várias narrativas.


Imagem: Sérgia Ribeiro, a Dadá de Corisco


A trajetória de vida de Sérgia Ribeiro da Silva, famosa no cangaço com o apelido de Dadá de Corisco, reflete o conturbado processo de empoderamento da mulher numa sociedade rural e patriarcal, uma vez que a sua entrada no bando se deu ainda menina e que sequer havia menstruado; Dadá fora raptada por Corisco, e rapto de mulheres, consentido ou não, era algo recorrente.


Sérgia teve uma trajetória violenta, trágica e lendária. “Menina de 12 anos e virgem”, ela conta que sofreu violenta hemorragia na primeira relação. Ficou traumatizada, física e mentalmente. Criou aversão pelo seu raptor, passou a evitá-lo. Dia seguinte, corpo dolorido, febre e calafrio, é obrigada a seguir viagem. Ao entardecer, chegam à casa de uma tia de Corisco, dona Vitalina”.


-“Abenção, minha tia”, foi a saudação do cangaceiro, que vai direto ao assunto.


- “Quero deixar a menina com a senhora, para que cuidem da saúde dela. Sigo viagem, mas volto em breve”, comunica Corisco, que deixa dinheiro e parte caatinga à fora.


Corisco e Dadá posam para fotos realizadas pelo libanês Ibraim Abraão, em 1936, no Raso da Catarina(BA)


Esta situação em “cativeiro” durou três anos, com Corisco a visitando várias vezes. Nessas ocasiões, o cangaceiro a presenteava com cortes de panos, perfumes, joias e dinheiro. O tempo todo buscando agradar a menina Dadá, que pelo cangaceiro desenvolveu sentimento arredio, e na presença do cangaceiro seu comportamento se alterava: tornava-se desconfiada e retraída.


A relação de Dadá e Corisco, que começara brutal, transforma-se com o tempo. Raptada aos 12 anos, acaba sendo levada da casa dessa tia de Corisco para o coito do bando. Começa então, a sua vida nômade, enfrentando tiroteios e fuga, seguindo Corisco, que era o segundo homem na hierarquia do bando.

O tempo transformou a menina indefesa, que foi apresentada ao bando ainda segurando uma boneca, em amante, depois companheira de jornada e mãe; uma relação que não a impediu de ter filhos.


Com a chegada dos filhos (foram sete) e em meio à guerra sem fim entre cangaceiros e volantes, Corisco e Dadá se casam. Ao contrário das demais cangaceiras que não combatiam, Dadá tinha boa pontaria, atitudes impositivas e a mão certeira no rifle. Por conta desse temperamento, “não se afinava muito com Maria Bonita, a mulher do chefe”.


Mas a mão que atirava era a mesma que bordava. Todos os que sobreviveram ao cangaço, confirmam ter sido Dadá ao lado de lampião a co-autora da estética do Cangaço inovando os bornais com florais coloridos e colocando estrelas de cinco pontas (signo de Salomão) em todos os adereços, moedas, fitas e chapéus dos cangaceiros.


Em 1939 com Lampião já morto, Dadá assumiu literalmente o comando do grupo de Corisco uma vez que seu companheiro fora ferido num tiroteio com as volantes ficando aleijado, sem condições de pegar em armas, ou mesmo comandar. Para agravar a situação, Corisco havia mergulhado no alcoolismo.

Num mundo governado por homens em guerra, Dadá tornou-se imperativa

- Em confronto ele se superava, atirava correndo de lado com o fuzil apoiado no braço; não podia mais rodopiar, saltar ou agachar-se, movimentos que o tornava no “Diabo Loiro”, recorda Dadá

E Dadá saiu-se bem, o que causava constrangimento a cangaceiros veteranos, que não assimilavam o fato de uma mulher em posição de comando. Sabe-se que Dadá influenciou Corisco na decisão de não se entregar – ela praticamente o impediu de depor as armas diante da anistia oferecida pelo Governo Vargas.

Dois anos após o massacre de Angico, a implacável volante do tenente Zé Rufino, localiza Corisco, Dadá, uma menina, Rio Branco e a companheira deste em fuga para o estado de Minas Gerais.

Tenente Zé Rufino, cabecilha de Volante temido e implacável no combate ao cangaço; o homem que matou Corisco


Surpreendido e incapaz de manejar um fuzil, Corisco novamente é ferido de morte, bem como Dadá que levou uma rajada de metralhadora. Sobreviveu. Corisco não resistiu e morreu, tendo alí sua cabeça cortada. Rufino poupa a vida de Dadá, que segue presa. Diante das poucas condições de higiene a perna ferida teve que ser amputada.

Presa e conduzida para Salvador, ainda no hospital, Dadá foi “cortejada”, e assumiu um relacionamento com um novo companheiro, homem pacífico, que aceitava e respeitava seu passado. Uma nova família em tempos de paz, mas uma mulher inconformada com a humilhante exposição da cabeça do amado no Instituto Nina Rodrigues

O caráter de Dadá não arrefeceu após o cangaço. Pelo contrário, brigou na Justiça para ter o direito de obter a cabeça de Corisco, exumar os ossos de Corisco, lavá-los e dar um enterro decente ao lendário Cristino.


Corisco, ao ser morto, estava aleijado e não podia manejar fuzil ou mosquetão, mas em condições de usar revólver


Dadá ainda viveu momentos de intensa adrenalina. Em um determinado momento de sua vida, 28 anos após seu último combate, a revista Realidade organizou e realizou um encontro entre Dadá e seu algoz, o implacável tenente Zé Rufino.

Em 1968, Dadá foi ao encontro de Rufino já na velhice. Ele, convalescendo e à beira da morte, chora ao pedir perdão a Dadá. Disse que não “queria ter matado Corisco, tudo ocorrera devido ao combate”. Ela concede o perdão a Zé Rufino, mas não se furtou em dizer, cara a cara...

- “Mas você sabe, mais que ninguém, que foi de emboscada”.


Pano rápido.


João Costa - blogdojoaocosta.com.br


“Maria Bonita Entre o Punhal e o Afeto”, de Nadja Claudino, 2020


Fonte. Matéria de Christina Matta Machado para Revista Realidade (Editora Abril)


“Gente de Lampião: Dadá e Corisco”, de Antônio Amaury de Araújo (2003

Por Trás do Blog
Leitura Recomendada
Procurar por Tags
Siga "PELO MUNDO"
  • Facebook Basic Black
  • Twitter Basic Black
  • Google+ Basic Black