Eleonor – O discreto charme da cangaceira admirada, morta e vítima de necrofilia

Por João Costa


A cangaceira Eleonor era baiana do Salgadinho, vila próxima a Paulo Afonso, ficou conhecida pelo nome de Neném do Ouro e famosa pelo fato de ser companheira do cangaceiro Luiz do Retiro, ou Luiz Pedro, lugar-tenente de Lampião, um dos cangaceiros mais abastados e de carreira longeva no bando.


Maria Déa ao lado do Casal Luiz Pedro e Neném do Ouro, em imagens de 1936, de benjamim Abraão



Os relatos de cangaceiros e cangaceiras que sobreviveram a Angico, a ela se referem como amiga e confidente de Maria Bonita. Mais que isso: fazia o tipo da mulher discreta, morena magra e que ouvia mais que falava.


- Mulher bafejada pela sorte, foi ferida várias vezes em tiroteios, mas parecia que tinha o corpo fechado, pois as balas passavam de raspão; adquiriu experiência rápida, paparicada pelo marido, vivia coberta de medalhões de ouro, segundo depoimento colhido entre cangaceiros sobreviventes.


Daí o charmoso nome Neném do Ouro.


Há controvérsias sobre seu ingresso no bando. Tem relatos de que fora raptada e por ela exigido resgate que não foi pago, devido ao estado de pobreza dos pais.


No início da vida bandoleira Neném chorava muito, mas acabou Luiz Pedro a tomando como companheira, declaração atribuída a Ilda Ribeira, a cangaceira Sila.


- De todas as mulheres do cangaço Neném foi a mais querida, tratada com imensa reverência, cuja personalidade lhe proporcionava ascendência sobre as demais cangaceiras, talvez por isso mesmo acompanhasse Maria do Capitão, até em passeios ou estadias fora dos coitos.


Contam que teve uma filha com Luiz do Retiro, de nome Maria Matos, que não sobreviveu e que agiu como anjo da guarda da jovem Ilda Ribeiro, recém ingressada no bando de forma coercitiva por Zé Sereno.


Eleonor foi abandonada pela sorte durante um tiroteio em 9 de novembro de 1936, ocorrido na fazenda Algodãozinho, Itabaiana(SE), uma noite de “Baile Perfumado” em que rolou muita bebida e forró; a famosa festa em que a jovem Ilda Ribeiro foi levada para o bando e entregue a Zé Sereno; regabofe este que acabou com a chegada da volante e seu cabecilha Amâncio Ferreira – sargento Deluz.


Estabeleceu-se o pandemônio louco, um tiroteio infernal em que a fumaça e a escuridão levavam o terror em todas as direções.


Inexperiente, a garota Ilda Ribeiro não sabia o que fazer debaixo da chuva de balas, encontrando amparo em Neném do Ouro, que a pegou e a arrastou pelo braço, ziguezagueando para furar o cerco, usando um curral como rota de fuga.


- Não se aparte de mim, haja o que houver e corra, corra e continue correndo, relembrou Sila anos depois as palavras de Neném do Ouro.


O tiroteio recrudescia com os cangaceiros fazendo uma barragem de fogo e de proteção para as mulheres e fuga de todos os demais bandoleiros.


Eis que um tiro certeiro alvejou Neném do Ouro, que caiu de cima de uma cerca do curral ali próximo, no exato memento em que atravessava o obstáculo.


Luiz Pedro já tomava distância quando escutou uma voz na escuridão em tom de desespero.


- Acertaram Neném, filhos de uma égua, acertaram Neném!


Ato contínuo, Luiz Pedro, que também atendia pela alcunha de Luiz de Salamanta ou Luiz do Retiro, ficou ensandecido, aumentou a cadência dos disparos do seu fuzil e voltou em “cima da bucha” para socorrer a sua companheira.


Foi impedido pela força de dois cangaceiros que o agarraram e jogaram-no no chão arrastando-o para o mato.


- Está morta, compadre!


Enquanto era arrastado pelo mato, o grito de dor e desespero daquele que era considerado um dos cangaceiros mais frios do bando de Lampião ecoava no ar.


-Volto e mato todo mundo! Bando de miseráveis! Relatam que foram essas as frases soltas entre soluços ditas por Luiz do Retiro.


De fato, a miséria humana em forma de bestialidade havia ficado para trás e tomaria forma de ferocidade necrófila.

Ali, morta no curral e na escuridão da noite, o corpo de Eleonor foi profanado.


Maria Bonita e os cães que seguiam o bando de Lampião, em 1936.



Os soldados da volante do sargento Deluz deram vazão aos instintos bestiais praticando necrofilia - a mais infame das relações sexuais.


Os soldados, um por um, abusaram do corpo de Neném.


Não satisfeitos, estimularam os cães a fazer sexo com o cadáver, enquanto entre gargalhadas e urros, “pepinavam” o corpo de Neném do Ouro com as pontas dos seus longos punhais.

Fontes. Amantes e Guerreiras – A presença da mulher no cangaço, de Geraldo Maia do Nascimento

Cangaceiros de Lampião de A à Z, de Bismarck Martins de Oliveira


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Foto. Maria Déa e o casal Luiz Pedro e Neném do Ouro