Espiritualidade para guardar o corpo utilizada pelos cangaceiros lampiônicos

Por João Costa


Símbolos do judaísmo e do cristianismo europeu são recorrentes na cultura brasileira e enraizada nos matizes que deram origens às crendices populares, notadamente de origem rural, em momentos de conflitos armados, que a historiografia oficial tentou apagar ou classificar como desimportante na formação do Nordeste.


Crucifixo usado Por Virgulino Ferreira, tomado de assalto a Baronesa de Água Branca


Travar conflitos desproporcionais como foi a Guerra de Canudos,1896; a guerra no Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, Crato-CE, 1926, nos dois episódios em que sertanejos analfabetos, excluídos de direitos, sem a proteção do estado ou das leis, exigiu-se muita determinação, força, capacidade de enfrentamento, ainda que predominasse a falta de proporcionalidade das capacidades militares do povo no enfrentamento às forças da legalidade, ou do estado.


A fé religiosa certamente preencheu esse vazio da população rural nordestina que bebeu em fontes religiosas do cristianismo europeu, do judaísmo ibérico e, até, do islamismo turco-europeu.


Ao tombar em julho de 1938 em Angico, Virgulino Ferreira da Silva Lampião, carregava colado ao corpo, “em saquinhos de pelica encardido atados ao pescoço, inseparáveis, salvo nos momentos de sexualidades, ao menos oito orações protetoras diferentes, impressas ou manuscritas: a de Nosso Senhor Jesus Cristo, a da Virgem das Virgens, a da beata Catarina, a de Santo Agostinho, ado Salvador do Mundo, a da Pedra Cristalina, a do Santo Lenho e a das Treze Palavras Ditas e Retornadas”. Além do famoso crucifixo de ouro puro.


No filme autêntico feito por Benjamim Abraão, em 1936, Virgulino conduz reza do bando


Reza a lenda que Lampião era difícil de ser combatido porque o “cego adivinhava e parecia estar em vários lugares ao mesmo tempo, ou simplesmente se encantava”.


Outrora, Virgulino havia sido tropeiro, daí sua expertise em longas caminhadas pelas caatingas, inclusive noturnas, guiando-se pelas estrelas, ou pela “Corda das serras” - variações no relevo terrestre, e podem ser divididos em duas categorias: acidentes naturais, como lagos, rios, montanhas, vales, serras, rochas elevadas, lajedos, etc.; e acidentes artificiais, como casas, cidades, pontes; relatos do cangaceiro Candeeiro confirmam essa expertise de Virgulinio.


Mas esse universo místico dos cangaceiros também era fortalecido por fontes nada discretas, o hexagrama, símbolo de Salomão – rei judeu, onde o triângulo superior representa a Água, no inferior; o ar, na cavidade entre as duas pontas da esquerda, o úmido e o quente; e entre as outras pontas, o seco e o frio. O universo místico judaico, só compreendido por judeus habilidosos na Cabala.


Também não custa lembrar que as estrelas de Salomão ou de Davi simbolizam a junção do masculino e feminino, referências que antecedem, inclusive, o judaísmo.


Não bastassem tantas referências, nos monumentais chapéus da aba quebra para cima, ainda era visível a Flor de lis – que é um lírio, um símbolo dos Cavaleiros Templários, usado pelas casas reais da França e Portugal.


Acrescente a inconfundível Cruz-de-Malta, símbolo máximo da Companhia de Jesus, ramo português dos Templários, que financiou o descobrimento do Brasil, e até hoje presente em igrejas e até no brasão da CBF a ornamentar o uniforme da Seleção Brasileira.


Esse conjunto místico usado como proteção por homens em constante perigo de morte estava casado com rituais ao amanhecer ou ao entardecer; a mística de não fazer sexo na Semana Santa, não comer carne e manter as armas descarregadas às sextas-feiras.


Agregue a tudo isso o poder das rezas – que está na oralidade, se ditas como um mantra. Verbalizadas em voz alta ou de maneira coletiva, as tornam mais poderosas.



Sendo assim, quem conseguiu chegar até o fim do artigo, recite em voz alta uma das orações de Virgulino Lampião:

De Nosso Senhor Jesus Cristo


Assim que vejo a luz do dia, vejo Meu Senhor Jesus Cristo e a Virgem Maria, tão grandes onde eu caminho neste vale de lágrimas, Como andou Meu Senhor Jesus Cristo tendo por perto Judas seu traidor, Que fizesse Deus por mim, ninguém contra mim, corpo e sangue de Meu Senhor Jesus Cristo. Oferecimento ....


Da Pedra Cristalina


“Minha Pedra cristalina, que no fundo do mar foste achada, entre o Cálice e a Hóstia Consagrada. Treme a Terra, mas não treme Nosso Senhor Jesus Cristo no Altar. Assim, tremem os corações dos meus inimigos quando olharem para mim; eu te benzo em cruz e não tu a mim, ente o Sol, a Lua e as estrelas, as três pessoas da Santíssima Trindade.


Meu Deus, na travessia, avistei meus inimigos. Meu Deus, que faço com eles?


Com a manto da Virgem Maria sou coberto, e, com o sangue do meu Senhor Jesus Cristo, sou valido. Tens vontade de atirar, porém não atiras. Se atirar, água do cano da espingarda correrá: se tiveres vontade de me furar a faca da mão cairá; se me amarrar, os nós desatarão e, se me trancar, as portas se abrirão.


Oferecimento: salvo fui, salvo sou, salvo serei com a chave do sacrário eu me fecho. Um Pai Nosso: três Ave marias; três Glória ao Pai, e ofereço às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!




Fontes de consulta: Estrelas de Couro - A estética do Cangaço de Frederico Pernambucano de Mello.

Capítulos da História do Nordeste, de José Bezerra Lima Irmão.


O Grande Livro dos Símbolos – de Cláudio Blanc


São Cipriano - O Bruxo Livro Capa Preta