Gato morre ao atacar Piranhas para resgatar Inacinha, a amada que termina com outro

João Costa

Santílio Barros, descrito pelos pesquisadores do cangaço como Gato, era filho de um casal sobrevivente da Guerra de Canudos, índio da tribo Pankararé e um dos mais celerados dos cabras de Lampião; sua imagem é intrínseca à sua companheira Inácia Maria das Dores, Inacinha, exatamente pelo fato de sua morte estar associada ao resgate da amada, capturada pela volante do tenente João Bezerra.


Cangaceira Inacinha, grávida, foi capturada pela volante do tenente João Bezerra


Antes de viver com Inacinha, que também era da tribo Pankararé/Pancararu, o cangaceiro Gato tinha como companheira uma prima desta de nome Antônia Pereira e era irmão de Julinha e Rosalina, companheiras dos cangaceiros Mané Revoltoso e Mourão (um primo seu); Santílio era um bandoleiro que agia de forma independente associado a familiares e que se juntou a Virgulino Ferreira quando este migrou com seu pequeno bando para a Bahia.


O cangaceiro Gato foi incorporado ao Bando de Lampião em 1926, recebendo esta alcunha de Gato para ocultar a morte de outro cangaceiro, chamado Gato Preto ou Gato Brabo; entre os anos de 1926 até setembro de 1936 sua trajetória no cangaço é de muito sangue e razias.


Fazia para Lampião os serviços mais arriscados e sujos, como “limpar o terreno”, isto é, matar os desafetos de Virgulino no próprio bando; atendendo ordens do chefe, por exemplo, assassinou os companheiros Mourão II (seu próprio primo e cunhado) e Mormaço II.


Os dois foram sentenciados à morte por Lampião por terem tumultuado um forró em casa de um coiteiro bem relacionado e com familiares no próprio cangaço; Mormaço e Mourão espancaram e violentaram duas filhas do referido coiteiro.

Gato não parou por aí; tempos depois e também por ordem de Lampião, coube a ele a missão de executar Coqueiro II – o dito cangaceiro que chantageou Lídia, de Zé Baiano, após descobrir o seu romance com o outro cangaceiro, o Bemtivi em julho de 1934.

Gato tinha ordens para também matar Bemtivi, mas este teve melhor sorte: se escafedeu no oco do mundo.

A Gato e seus sequazes é atribuído o “massacre da fazenda Couro”, em Poço Redondo, quando sete pessoas foram mortas, como também uma sequência sinistra de saques, incêndios e estupros.


Em setembro de 1936, seu bando deu uma parada na fazenda Picos, em Piranhas, porque sua companheira Inacinha estava em vias de parir. Ali o bando, que era integrado por Moreno, João Vital, cabras de confiança de Gato, foi atacado pela volante do tenente João Bezerra.


Resgate fracassado mediante ressistência civil


Impossibilitada de correr, Inacinha é baleada na perna e capturada, os demais escapam, enquanto o tenente João Bezerra conduz Inacinha presa deixando a entender que se dirigia para Piranhas, sua base militar.

Suposto cangaceiro Bemtivi, escapou de sentença de morte decretada por Lampião


Ensandecido com a captura de sua companheira, Gato vai até uma fazenda próxima, chamada Cachoeirinha onde Corisco está arranchado com seu bando em companhia de Moderno e Português.


- Pretendo resgatar minha mulher de qualquer jeito, pois ela ainda está viva e com quem posso contar?


De pronto, os demais se associaram a Gato na empreitada de atacar Piranhas, resgatar Inacinha porque Gato apresentou também um argumento muito forte:


- É uma oportunidade de dar uma lição no tenente João Bezerra.


No trajeto até Piranhas o bando promove uma guerra de terra arrasada com Gato fuzilando quem encontrava pela frente; mais de dez pessoas foram mortas.


O município de Piranhas é tomado por intenso alarido na iminência de um ataque de cangaceiros; a cidade está sem polícia, parte da população ganha o mato e outra se arma para a defesa.


O tiroteio entre cangaceiros e civis é fenomenal; até a mulher do tenente João Bezerra, Dona Cira, posta-se na janela de sua casa com um rifle papo-amarelo na resistência.


Ali por perto, um cidadão de nome Francisco (Chiquinho) Rodrigues, comerciante, também armado de rifle cruzeta de dez tiros e tendo a sua disposição muita munição, abre fogo, não dando sossego aos cangaceiros – dizem que do ponto onde estava disparava sucessivamente pois segundo ele mesmo declarou muitos anos depois, tinha a sua disposição 150 cartuchos.


O cangaceiro Gato, tresloucado, dispara sua arma de peito aberto, no meio da rua.


Bom no gatilho e do seu ponto, Chiquinho Rodrigues mira bem e... Pou!


Gato é atingido no quadril por um balaço.


A pouca distância de Piranhas, a bordo de uma canoa atravessando o rio São Francisco, estava o libanês Benjamim Abraão que assinalou em sua caderneta:


Atravessava o rio quando se travou o combate. Encontrava-me a uma distância de meia légua da cidade. Corri ansioso para lá. Era uma oportunidade que não devia deixar escapar. Infelizmente, cheguei tarde. Os bandidos já se retiravam. Bem junto a mim, em um sofá, ferido, passou Gato, chefe do grupo. Quando entrava na cidade, tomaram-me por bandido e, por um triz, não me bateram”.


Gato morreria de hemorragia três dias depois.


O tenente João Bezerra e sua volante conduzindo Inacinha chegam a Piranhas pouco tempo depois do famoso entrevero.

Atrás das grades, Inacinha encontra sossego para tratar do ferimento na perna e parir.

Com a morte de Gato, Inacinha não ficou só; na cadeia conheceu um soldado com quem passou e viver depois que ganhou a liberdade.


Fontes de consulta: Cangaceiros de Lampião de A a Z, de Bismarck Martins de Oliveira.

Amantes e Guerreiras, de Geraldo Maia do Nascimento

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