Geopolítica: guerra híbrida contra a Rússia é prenúncio de guerras civis em outros países

João Costa


Não necessariamente nessa ordem, o conflito entre Rússia e Ucrânia, renasceu como guerra híbrida em 2014 num contexto dos vários golpes de estado que o Departamento de Estado dos EUA, sob o controle dos chamados neoconservadores suprapartidários (democratas e republicanos) promoveu; ações exitosas na Líbia com a deposição de Muammar Kadaffi (Líbia 2011),revoltas árabes (2013), fracassadas na Síria e na Turquia, mas golpes exitosos no Egito(2011) e Brasil ( 2013-2016) e fracassado na Venezuela, em 2019.


Wladimir Putin, após aliança com a China, a decisão de pôr fim à expansão da OTAN


A Ucrânia é para os EUA uma cunha no coração da Rússia, herdeira do Império Russo dos Czars e daquilo que foi a URSS. Qualquer governante russo estaria fazendo o que hoje faz Wladimir Putin. Mas está nas mãos do Putin desarmar e desmantelar os protetorados de Washington; no momento a Ucrânia, mas despertando o alerta para a Arábia Saudita e Israel – não é atoa que o estado judeu já percebeu isto e se desloca da condição de protetorado da EUA para se aproximar da China.


Tem a Europa, economicamente poderosa, militarmente forte com a OTAN, mas com suas principais nações sem nenhuma soberania, anêmicas de energia. A exemplo da Alemanha que abriga cinco das sete guarnições militares dos EUA na Europa, com 35 mil soldados estacionados distribuídos em 118 bases militares; a Itália com 44 bases militares e 12 mil soldados. Os germânicos praticamente já capitularam diante dos neocons (neoconservadores), enquanto a Itália se distancia e se aproxima das Rotas da Seda, espécie de expansionismo da China na Europa.


Voltemos à guerra civil entre Rússia e Ucrânia. Como conhecemos hoje, a Ucrânia foi uma criação de Wladimir Lenin na reorganização política na esteira de Revolução de 1917, período entre 1919 e concretizada em 1922. Os nacionalistas ucranianos reivindicavam, durante a Revolução de 1917, a criação de um estado, e assim se fez.


Fim da URSS


Mas tudo teve um fim nos anos 90. A dissolução da União Soviética ocorreu em 26 de dezembro de 1991, como resultado da declaração nº. 142-Н do Soviete Supremo da União Soviética. A declaração reconheceu a independência das antigas repúblicas soviéticas e criou a Comunidade de Estados Independentes.


Dessa dissolução do Império Soviético, a Ucrânia herdou o melhor da Grande Rússia em tecnologia aeroespacial, naval (Crimeia), agricultura e indústria pesada, cujo principal parque fica nas regiões do Dombass, e Donestsk, regiões históricas, cultural e econômica da Ucrânia, que em 2014 proclamaram independência, em discordância ao golpe de estado.

A URSS se desfez em 1991, desmantelando simultaneamente o seu braço militar, o Pacto de Varsóvia. Já a OTAN, braço armado da Europa Ocidental, criada para se contrapor à expansão militar do comunismo, não. O Comunismo acabara, mas o viés expansionista mudara de lado, porque passou a ser política da Europa Ocidental expandir seu braço militar, a OTAN, não só pela Europa, mas pelo mundo, a tal ponto que a Colômbia e Brasil que ficam na América Latina a ela estão vinculados por acordos militares.

De tal forma que este século 21, que se iniciou com o 11 de Setembro, mergulhou numa pandemia em 2019 (Covid), promove o avanço da OTAN para Ásia e agora se depara com uma guerra civil superquente na Europa que pode evoluir para uma conflagração generalizada por aquele continente.


A Rússia se sentido assim, em 2014 retomou da Ucrânia a península da Crimeia, agora reconhece a independência do Dombass e está decidida a barrar, militarmente, o expansionismo da OTAN – utilizando as armas que dispõe, inclusive 4.500 ogivas nucleares – suficientes para destruir a Europa e o resto do mundo.


A mídia ocidental esconde, mas Putin estacionou na Síria, uma dezena de aviões Mig-31 com mísseis hipersônicos Kinzal e Zircon e capazes de afundar toda a frota norte-americana no Mediterrâneo, sem que esta possa se defender; além de outros Mig-31 em Kaliningrado, prontos para varrer a OTAN com ataques em que essas aeronaves ficam fora do alcance das baterias e misseis antiaéreos.


Mas essa reação da Rússia ao expansionismo da OTAN tem a China como avalista – o suficiente para alterar o jogo.

Em 4 de fevereiro de 2022, Putin e Xi Jinping firmaram uma “aliança sem limites”, colocando um ponto final no mundo unipolar liderado pelos EUA e iniciando um novo mundo multipolar. Em outros termos, deslocando da Europa e da América para a Ásia o centro de poder mundial, tanto do ponto de vista econômico como militar.


Economicamente a China já é a maior potência econômica do planeta, a Rússia está décadas à frente dos EUA do ponto de vista militar; esses dois países lideram a União Econômica Euroasiática (UEE), que inclui Irã, Paquistão e outros “istãos”, lastreados pela chamada Rota da Seda que alcança na ponta final a Europa: Itália e Portugal.


Abrindo as "portas do Inferno"


Mas Putin, ao desmantelar a Ucrânia, abriu as “Portas do Inferno”, porque nessa esteira os EUA evidentemente se sentirão à vontade para atacar o Irão e estimular mais ainda os nacionalistas de Taiwan, uma vez que os próprios norte-americanos defenestram os franceses de um acordo militar com a Austrália, enquanto esta, mesmo se localizando na Ásia, é um país vassalo do Reino Unido, que por sua vez nada mais que serviçal das vontades dos neocons suprapartidários do Departamento de Estado.



A China Continental se quiser tomar Taiwan pela força, tem capacidade militar. Mas isso não desestimula os nacionalistas que podem cometer o suicídio que os nacionalistas e neonazistas ucranianos fizeram.


E se esta guerra civil com ingredientes da guerra híbrida dos EUA contra países que se recusam ao seu domínio, espoletar outras guerras civis? Os EUA praticamente já vivem uma. Mas aí já outro “inferno”; talvez demore se abrir, talvez não.


As conversações de paz estão se desenrolando na Belarus e não em Paris ou Bruxelas. O eixo do mundo mudou, desde 4 de fevereiro de 2022.


Opinião