Guerra ao Cangaço: Sila sobreviveu, recomeçou a vida e chegou a trabalhar na TV e escrever livros

Na sociedade patriarcal, base social do mundo rural nordestino no início do século XX, raptar a amada ou a mulher que se desejava era uma prática recorrente. No cangaço houve casos emblemáticos; não se aplica a todas as mulheres que entraram para esses bandos, mas em todas as situações, significava rompimento de padrões. É o caso de Ilda Ribeiro Silva.


Conhecida no cangaço como Sila, companheira do cangaceiro Zé Sereno, Sila foi raptada por ele ainda adolescente. De maneira circunstancial, Sila teve um encontro numa festa rural com duas feras do cangaço: Zé Baiano e Zé Sereno e, ali, seu destino foi traçado. Sila recebeu um recado de Zé Sereno.


Ex-cangaceira Ilda Ribeiro - Sila, sobreviveu ao massacre da Grota do Angico



“Mandou avisar-me que dentro de quinze dias haveria um baile em determinado lugar, e que eu deveria estar presente, porque dali sairia para viver em sua companhia. Entregue ao meu desespero, vi as horas passarem em branco. Por fim fui colocando os pensamentos em ordem, e já podia refletir. Mas à medida que o tempo escoava, eu não via como mostrar ao cangaceiro que não pretendia ser uma deles. E dizia a mim mesma que melhor seria morrer que viver no cangaço”, narra Sila sobre seu ingresso no bando.


Sila foi raptada ao 14 anos pelo cangaceiro Zé Sereno; os dois casaram e sobreviveram ao massacre de Angico


Sua família nada pode fazer, mesmo ela tendo compartilhado seu medo. Ocorreu a tal festa e, em determinado momento, Neném, mulher do cangaceiro Luiz Pedro, foi avisá-la que era hora de partir.


- Agora você vai embora, Sila. Zé Sereno mandou-lhe dizer que é pra você ir agora, assim do jeito que você está, foi o ultimato de Neném.


- Senti-me como que suspensa no ar, numa horrível sensação de medo, pavor, incerteza e ainda a saudade imensa de minha casa, dos meus irmãos. Imaginava o que devia acontecer, se me deixassem no mato, ou em algum lugar que eu não conhecia. E assim partimos, caminhando pelo mato afora, todos calados”, contou Sila em seu relato.


Ex-cangaceira Sila, trabalhou na TV Tupi como figurinista, escreveu livro de memórias sobre o tempo do cangaço


O amor romântico sempre foi uma possibilidade, e amar e ser amado, o sonho de todos. Mas o amor também pode surgir em outras circunstâncias.


Sila e seu companheiro sobreviveram ao massacre de Angico. Casou com Zé Sereno e permaneceu com ele até a morte deste, no inicio da década de 80. Sila morreu em 2005, escreveu vários livros, trabalhou como figurinista em TV, e voltou a Angico tempos depois, onde prestou inúmeras entrevistas.


Foto 2. Sila - quando no cangaço - fotografada pelo libanês Benjamim Abraão

Fonte: “Maria Bonita – Entre o Punhal e o Afeto”, de Nadja Claudino.

“Eu Sobrevivi”, de Ilda Ribeiro em depoimento a Antônio Amauri (1997)

Por Trás do Blog
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