Guerra ao cangaço: Tenente Zé Rufino – o cabecilha de volante que não fazia acordos

Por João Costa


Descrito por muitos estudiosos do cangaço como estrategista, meticuloso e implacável, o tenente José Osório de Farias, o famoso Zé Rufino, não fazia conchavos quando se tratava de dar combate a cangaceiros, tanto assim que ignorou a famosa anistia dada pelo Estado Novo aqueles cangaceiros que depusessem as armas; aproveitou a deixa do fato de Corisco não ter se entregado, para manter sua escalada de perseguição ao bandoleiro até eliminá-lo.


Tenente Zé Rufino, foi sanfoneiro profissional antes de se tornar o mais implacável dos chefes de volantes

Os historiadores também gostam de traçar comparações entre Zé Rufino e Virgulino Ferreira, dois guerreiros lutando em lados opostos, mas com afinidades e habilidades em comum.


Lampião nasceu em Serra Talhada, Zé Rufino no município vizinho de São José do Belmonte, ambos no Pajeú pernambucano; Virgulino arranhava no acordeom, Zé Rufino era músico sanfoneiro e animador de baile, Lampião tinha habilidades como artesão em couro, Zé de dona Rufina, também; Lampião tinha 1.80 de altura, aproximadamente, Zé Rufino era muito alto, se o “rei do cangaço” era moreno e magro, o tenente do mesmo jeito – e as semelhanças não param por aí.


Os dois se conheceram antes de entrar em guerra quando um tocava sanfona e animava bailes e o outro dançava, pois era considerado pé-de-valsa. Isso antes de Zé Rufino ingressar na Polícia para ser reconhecido por Lampião como o chefe de volante mais temido, e aos dois havia uma vocação inata: capacidade para a guerra de guerrilha, uma guerra de emboscadas, dissimulações, planejamento e mestria em ações stealth na caatinga.


O próprio Zé Rufino conta que recusou por duas vezes o convite para ingressar no bando de cangaceiros, feito de viva-voz por Lampião. Se Virgulino Ferreira rapidamente tornou-se chefe de bando, Zé Rufino também não demorou muito como soldado raso, rapidamente tornou-se cabecilha de volante.


Virgulino mantinha uma média de 13 a 20 homens sob seu comando direto, Zé Rufino sempre manteve o mesmo número de soldados ou contratados na volante que chefiava.


Relatam que Lampião tinha fala mansa e temperamento frio, cauteloso; o tenente Zé Rufino também mantinha o mesmo modus operandi – não tinha atitudes açodadas nos combates, a exemplo dos nazarenos, também destacados combatentes do cangaço.


Eis que num sábado de agosto de 1937, dia de feira em Serra Negra, o tenente Zé Rufino descansava de extensa jornada ao tempo em que seus comandados tiravam folga para tomar “umas e outras”, jogar baralho e namorar, quando surge no povoado um sujeito montado num burro castanho despertando a atenção do famoso rastejador Gervásio, que proseava à porta do salão de sinuca.


- Oxente! Mas olha mesmo quem está por aqui, Temístocles da fazenda Queimadas, coiteiro deslavado de Lampião; essa alma quer reza... E o que danado está fazendo aqui, em Serra Negra?


Bando de Lampião (segundo sentado da esquerda para direita) entre dois de seus irmãos Antônio Ferreira e A. Rosa


O rastejador passou então a monitorar o coiteiro, que se dirigia diretamente para a residência do coronel chefe político João Maria. O desdobramento dessa visita inesperada foi imediato porque o coronel despachou um empregado para contatar o tenente Zé Rufino, pois o coiteiro queria uma conversa “pé de orelha” com o tenente.

- Sem muito arrodeio, pode falar: do que se trata? Perguntou Zé Rufino ao coiteiro Temístocles.


O diálogo se deu em linguagem quase que cifrada.


- Tenente, qual a possibilidade de um acordo razoável?


Quis saber Temístocles, deixando subentendido vantagens financeiras, segurança, e discrição naquela conversa com Zé Rufino, travada na sala de jantar de João Maria, sem ninguém por perto.


Zé Rufio abriu o flanco da conversa, deixando a entender que um acordo seria mesmo razoável para aquela guerra sem fim entre sua volante e o bando de Lampião – e adiantou suas pedras no tabuleiro da conversação.


- Qual seria o acerto? Quando e onde posso falar com o Capitão?


O coiteiro Temístocles deu as coordenadas.


- O tenente certamente deve conhecer ou já ouviu falar na fazenda Capoeira, de Julião dos Nascimento, um lugar muito bom para uma conversa sem muito alarido.


O tenente Zé Rufino apenas aquiesceu positivamente com a cabeça. Discretamente o coiteiro se retirou, o tenente ainda proseou com João Maria tomando calmamente seu café; se despediu e caminhou sem alvoroço até onde os soldados da volante estavam arranchados, olhou bem nos olhos do seu guarda-costas e ordenou.


- Quero toda a tropa aqui, agora! E me providencie duas metralhadoras com tudo que tiver de munição – e disparou:


-Acordo comigo? Só se for na bala!


Algumas léguas distantes de Serra Negra, na fazenda Capoeira, Temístocles teve um Tête-à-tête com Lampião.


- Capitão, tudo certo, disse Temístocles a Lampião, antes mesmo de desmontar do burro.


-Tudo certo, como? Viu o homem? Conte-me toda a conversa direito, quis saber Virgulino.


- Capitão, eu vi o homem, tive uma conversa pé-de-orelha, ele se interessou por fazer um acordo com o senhor, e mandou perguntar onde e quando pode ter um entendimento reservado com o senhor.


Virgulino Ferreira Lampião, em pose para fotos realizadas pelo libanês Benjamim Abraão, em 1937


O tenente perguntou por onde eu andava ou estava? Quis saber Lampião.


- Perguntou, Capitão.


- Você disse que eu estava aqui, na Capoeira?


Temístocles sentiu que, sem querer, havia delatado ao tenente Zé Rufino a localização do coito.

- Disse ou não disse? Insistiu Lampião.


Temístocles vacilou na resposta, gaguejou, afirmou que não havia relevado o lugar do coito, mas não convenceu Virgulino Ferreira que imediatamente deu voz de comando.


- Quinta-feira, chame os meninos, vamos levantar acampamento, mais ligeiro que depressa, já!


O tenente Zé Rufino só não cercou e liquidou com Lampião, porque o cabo Miguel, ordenança de Zé Rufino, levou tempo para reagrupar a tropa espalhada pela feira ou em casas de parentes, e por um detalhe recorrente na volante e não menos importante:


Gervásio, o rastejador, estava de pileque numa das bodegas de Serra Grande e demorou a se curar da carraspana.


Acesse: blogdojoaocosta.com.br


Fonte de consulta: Lampião – a Raposa das Caatingas, de José Bezerra Lima Irmão.


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