Guerra arrasada contra o cangaço na Paraíba: a reputação de Clementino Quelé o precedia

Por João Costa


Em 1926, de posse de um telegrama despachado pela chefatura de polícia de Pernambuco, o tenente José Guedes, cabecilha de volante paraibana, arregimenta sua tropa, pede colaboração ao coronel Zé Pereira, de Princesa(PB), pois Lampião e bando estariam do outro lado da divisa, em Flores(PE) – como sempre, o sargento Clementino Quelé, ex-cangaceiro de Lampião e seu inimigo figadal está à frente de uma volante e da empreitada da polícia paraibana.


Volante paraibana do tenente Zé Guedes e Clementino Quelé: combate sem trégua ao cangaço


O coronel Zé Pereira colocou à disposição da volante um caminhão e, rapidamente, a tropa assedia Flores com diligências em sítios, fazendas e arruados; prendendo, interrogando e barbarizando.


Um dia qualquer de janeiro de 1926, a tropa captura o roceiro José Paulo Lopes, primo de Lampião, e o ex-cangaceiro José Araújo, o Zé Garrancho. Sob tortura, eles indicam o paradeiro de Lampião, que estaria em um coito nas cercanias da Serra Grande.


Após marcha forçada, as volantes, por onde passam, deixam um rastro de terror – e esse modus operandi fez com que Lampião fosse alertado ou desconfiasse da prisão do primo – que teria feito compras em feiras para abastecer o bando e de iminente ataque, pois bateu em retirada para logo adiante armar emboscada, que resultou em confronto.


Logo nos primeiros tiros, o anspeçada Manoel Teotônio é alvejado com dois balaços; cai aqui, cai acolá, Teotônio resiste aos ferimentos, supera a dor, não esmorece permanecendo na linha de frente disparando.


- Segura o fogo! deem cobertura a Mané Teotônio e bala nesses filhos de uma égua! Ordenava o tenente Zé Guedes.

Bem entrincheirados, cangaceiros e volantes, suspendem o fogo, pois o desperdício de munição era muita, e o tenente Guedes ordena a retirada.

Não longe desse combate, o sargento Clementino Quelé, que mantinha o primo de Lampião sob custódia, resolve liquidá-lo.

Quelé havia se juntado à volante em estado febril, doente, mas ainda assim encontrou forças para dar sequência à perseguição implacável a Lampião pois este, em jornada de razias, tiroteios e vinganças, havia matado Quintino Quelé, irmão de Clementino.


Antes de ingressar na Polícia, Clementino Quelé fora cangaceiro do bando de Lampião


E pelo fato de José Paulo Lopes ser primo de Virgulino Ferreira, o rapaz estava num beco sem saída; sentença de morte estava nos planos de Clementino Quelé, uma forma de vingança contra Lampião.


- Você vai responder agora pelo que Lampião fez com meu irmão, foram as últimas palavras que José Lopes escutou da boca de Clementino Quelé.


José Paulo Lopes, debilitado em consequência das sessões de espancamentos e com as mãos amarradas para trás, levou um tiro à queima roupa disparado por Clementino Quelé.


- Menos um dos Ferreira, não me interessa se é primo, tio ou cachorro da casa, só sossego quando pôr as mãos nesse cego miserável, dizia Clementino Quelé por onde passava.


Em dado momento na sua escalada de vingança e perseguição aos irmãos Ferreira, o sargento Clementino Quelé não media distâncias, não limitava suas ações e diligências apenas na divisa entre Paraíba e Pernambuco; no rastro de Lampião, o Tamanduá Vermelho, apelido de Clementino dado pelo próprio Virgulino, ousou mais que podia.


No comando de uma tropa que era mesclada por solados, contratados e parentes seus, Clementino mirou o vasto território que vai de Serra Talhada a Nazaré do Pico, reduto não apenas dos nazarenos, inimigos de Lampião, mas também de coiteiros, fazendeiros amigos e parentes do “rei do cangaço”.


A reputação de Clementino Quelé o precedia. Espancamentos, incêndios em propriedades e ameaças de morte a quem ele suspeitava de colaborar, dar abrigo ou proteção a Lampião, quer seja em arruados, sítios ou fazendas.

Mas o sargento Clementino Furtado acabou sendo barrado em Nazaré do Pico, pelos chefes de famílias nazarenas.


Bando de Lampião(sentado segundo à direita) entre seus irmão Antônio Ferreira e Antônio Rosa, em 1926


- Sargento Clementino o senhor e sua volante estão muito longe da Paraíba, e por aqui nos arredores da vila de Nazaré do Pico, residem pessoas da família Ferreira, que são gente de bem e nada tem a ver com o bandoleiro, foi o aviso dado a Clementino pelos chefes militares das volantes nazarenas.


- Me retiro, volto para Paraíba, mas quem eu encontrar no caminho que comprovadamente dê guarida ao bando dos irmãos Ferreira, não vou alisar.

Disse Clementino antes de se retirar com sua volante da região do Pajeú, mantendo a certeza que Lampião não tinha apenas algumas famílias como inimigas na região, e que integrantes destas mesmas famílias mantinham relações com o cangaceiro.


Acesse: blogdojoaocosta.com.br

Fontes de consulta: Lampião na Paraíba – Notas para a História, de Sérgio Augusto de Souza Dantas.

Memórias de um Soldado de Volante, volumes I e II, de João Gomes de Lira

Lampião – A Raposa das Caatingas, de José Bezerra Lima Irmão.









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