História: assassinato do delegado de Pombal - o bravo tenente Manoel Cardoso

Por José Tavares de Araujo Neto


O tenente Manoel Cardoso havia relutado para não ser nomeado delegado de Pombal. Não por receio, não era de se assustar diante do perigo. Era um homem corajoso, valente e cumpridor das tarefas que a ele eram atribuídas, por mais árduas que fossem. Ele já havia ocupado esse mesmo cargo anteriormente, e isso havia lhe causado enorme indisposição como pessoas influentes da cidade, principalmente após a apuração de uma tentativa de assassinato do subdelegado do povoado de Malta, no qual apontou o jagunço Possidônio Leandro da Silva como um dos participantes do evento criminoso. Melindrar os poderosos é muito mais perigoso do que enfrentar os bandidos, por mais facínoras que estes fossem.


Cadeia Pública de Pombal, uma das mais seguras do estado durante o período colonial e início da República


Manoel Cardoso gozava de grande prestígio no seio da sua corporação. Era tido como um dos mais brilhantes oficiais do quadro da Polícia Militar da Paraíba, por isso era sempre escalado para as regiões onde havia grandes conflitos, aquelas que tinham maiores problemas na segurança pública. Teve uma destacada e reconhecida atuação no vale do Piancó, onde eram constantes as incursões de grupos de cangaceiros. Em diversas oportunidades, nas inúmeras diligências que comandou, impôs relevantes perdas aos grupos organizados, constando de prisões e baixas efetuadas juntos aos bandos liderados pelos mais temíveis bandidos que infestavam os sertões, a exemplo de Lampião, Sabino das Abóboras, Cícero Costa e Luiz Leão.


O empresário Luiz Siqueira Granja Coimbra, mais conhecido como Tarugo, era natural de Palmares, cidade localizada na zona da mata pernambucana. Chegou em Pombal em 1919, onde se estabeleceu com uma loja de comercialização de insumos agrícolas. Era uma pessoa letrada, de fino trato, e excelente orador, logo conquistou a admiração da elite local. Excelente articulador, ganhou a simpatia e confiança do deputado Dr. José Queiroga, chefe político local que o indicou para o cargo de subprefeito, na chapa encabeçada pelo Francisco Dantas de Assis, Chiquinho Cabeçudo, casado com Maria Florentina de Queiroga, prima do chefe Político da cidade. Este casal é patriarca dos “Cabeçudos”, como eram chamados os irmãos Ornílio, Zeca, Osório, Pexinho, Amadeu, Solom e Eloy, que tiveram destacada atuação na política da região de Pombal.


Tarugo havia organizada uma comitiva, integrada por colegas comerciantes de diversas cidades da região, para visitar Marcolino Diniz, que se encontrava preso na cadeia de Triunfo. Marcolino Diniz, sobrinho e cunhado do coronel José Pereira de Princesa, que também era comerciante em Cajazeiras, estava trancafiado por ter assassinado o juiz daquela cidade pernambucana.


No início da tarde de 11 de janeiro de 1924, sexta-feira, véspera da tradicional feira-livre da cidade, o tenente Manoel Cardoso encontrava-se no estabelecimento comercial de Francisco de Sá Cavalcante em distraída conversa com o proprietário da loja, quando avistou um grupo de pessoas fortemente armada, alguns com armas longas sobre os ombro. Em grande algazarra, os homens caminhavam em direção ao Bar Araújo. Era a tal caravana liderada por Tarugo que retornava de Triunfo.


Entre aquelas pessoas, o delegado de imediato identificou a presença do subprefeito Tarugo ladeado pelos seus inseparáveis seguranças Possidônio Leandro e Antonio Romualdo. Incontinente, ele se dirigiu até o grupo e, em abordagem feita diretamente a Tarugo, reclamou do uso de armas de grosso calibre em plena via pública. A atitude do tenente gerou uma calorosa discussão, que foi silenciada por uma série de disparos de armas de fogo, cujo saldo foi o corpo ensanguentado e inerte da autoridade policial sobre o chão.


Temendo a chegada da força policial, o grupo se homiziou na casa do Dr. José Queiroga, localizada em frente à cena do crime. Ao chegar, o pequeno destacamento local fez o cerco à residência do deputado, iniciando uma forte troca de tiros.


Diante do conflito, o Dr. José Queiroga imediatamente contatou o tenente Antonio Salgado, que apesar de destacar na região de Cajazeiras, encontrava-se em Pombal, na sua residência. Chegando à cena do embate, o tenente Salgado determinou que os policiais baixassem as armas, relaxassem o cerco e retornassem à delegacia. Em seguida, Dr. José Pereira, temendo represálias da polícia, determinou que seu motoristas condisse os três criminoso à cidade de Princesa, onde ficaram homiziados sob a proteção do poderoso coronel José Pereira.


Na apuração da autoria e da materialidade do assassinado do tenente Manoel Cardoso foram indiciados Tarugo, Possidônio e Antonio Romualdo. Por conivência e coparticipação, foram indiciados Manoel Batista, Rubens de tal, o ex-soldado Bernardo Nogueira, Antonio Benevides, Dr. Clovis (residente em Sousa), José Pereira Regis (residente em Cajazeiras) e Alípio Pereira (residente em Princesa), todos sob a acusação de abrirem fogo contra a polícia quando esta chegou em socorro ao tenente Cardoso na pretensão de prender os criminosos.

O Alto comando da Polícia Militar da Paraíba abriu um inquérito militar para apurar a responsabilidade do tenente Antonio Salgado havia na fuga dos assassinos do seu colega de farda, mas nada foi comprovado contra o oficial. O inquérito foi arquivado por falta de provas.


Tarugo demorou pouco em Princesa. Fugiu às pressas ao tomara conhecimento do plano dos sargentos Manoel Arruda e José Guedes, o baixote, que queriam vingar a morte do oficial a qualquer preço, mesmo se fosse preciso invadir propriedades de José Pereira. Foi o próprio coronel que o aconselhou a procurar lugar mais seguro. Mais que ninguém, o chefe político princesense sabia da coragem, da disposição e, principalmente, do atrevimento dos dois sargentos das forças paraibanas.


Inicialmente Tarugo se homiziou em Afogados da Ingazeira, terra de sua esposa, posteriormente foi residir em Recife, onde exerceu o cargo diretor de uma importante multinacional no ramos de processamento de carnes.


Em 1930, após denúncia de uma testemunha, Tarugo foi investigado por suposta participação indireta no crime que vitimou o presidente João Pessoa, praticada por João Duarte Dantas, em Recife. Entretanto, o Ministério Público não o indiciou por falta de provas.


José Tavares é escritor e pesquisador

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