Histórias do cangaço: Livino na alça de mira das volantes paraibanas e Nazarenas

Em julho de 1925 estoura a notícia de que o bando de Lampião segue uma escalada de assédios e razias na região de Flores(PE); mensagens pelo telégrafo são despachadas em todas as direções pedindo reforços; de Princesa Isabel(PB), volantes lideradas pelos sargentos Cícero de Oliveira e José Guedes, acantonadas na região, seguem em marcha forçada em socorro do apelo pernambucano.


Imagem: volante paraibana comandada pelo ten. Zé Guedes


No lugar da Baixa do Juá, em Tenório, o bando é localizado; protegidos pela escuridão da noite, arma-se um cerco com estratégia de deixar Lampião e seu bando pelo menos na mira de três linhas de tiro. Mas a sorte está do lado dos cangaceiros arranchados numa casa, que são alertados pelos cães do lado de fora.


Antes do cerco se fechar, os cangaceiros dão a primeira descarga de tiros de dentro da casa em direção à volante paraibana. O caos se estabelece: tiros, insultos, palavrões embalam o pipocar dos tiros de rifles e fuzis.


Temível força dos nazarenos chega em reforço da volante paraibana


O sargento Cícero de Oliveira, que havia perdido um irmão num tiroteio anterior com os cangaceiros em uma localidade chamada Serrote Preto, está dominado pela sede de vingança, despreza qualquer atitude de cautela: grita, xinga e dispara sua arma sem cessar. Eis que leva um tiro na testa disparado de arma longa por um cangaceiro sitiado.


A tiroteio aumenta. Nessas circunstâncias, o cangaceiro Livino Ferreira, chefe de bando e irmão de Virgulino, tira proveito do caos e consegue escapulir da casa.


Junto a uma cerca feita com troncos de madeira, ao lado de um grosso umbuzeiro, Livino toma posição novamente e passa a atirar feito um ensandecido.


Tempos depois, o cangaceiro Antônio Luiz Tavares, o Asa Branca”, sobrevivente aquele inferno de balas, daria seu depoimento em entrevista ao Diário de Natal, de agosto de 1968:


“Estávamos frente a frente com a volante, cruzando fogo, Livino, que era muito disposto, ficou em pé, gritando que em macaco não precisava se atirar deitado”.


Em dado momento, Livino habilmente começa a municiar a arma, mas num descuido abre a guarda. Um soldado da volante paraibana o tem na alça de mira. O franco-atirador friamente espera pelo momento certo para o disparo infalível.


Pou!


Livino, o truculento, o impulsivo e o mais afoito dos irmãos Ferreira, é atingido. O projétil, disparado pelo infalível franco-atirador da volante, vara o peito da esquerda para a direita, um pouco abaixo das axilas.


Livino, o Vassoura, tomba ferido. Dizem que tinha essa alcunha pela destreza de varrer o campo de batalha com suas armas e de limpar o terreno sangrando os soldados feridos em confronto.


Sua hora não havia chegado, ainda resta um sopro de sorte ao bandoleiro.


Seu estado de saúde é gravíssimo; os demais comparsas, vendo a aflição de Livino, aumentam a fuzilaria com disparos a partir da retaguarda dos cangaceiros que conseguem resgatá-lo se esvaindo em sangue para um coito chamado Boca da Furna.


A incerteza sobre o paradeiro de Livino, vivo ou morto, se instaurou; a comemoração pela morte do temível cangaceiro estava entalada na garganta dos soldados da volante paraibana e dos nazarenos.


Volante nazarena comandada por Odilon Flor; iniciaram sua guerra contra Lampião por questões pessoais


A dúvida termina com uma notícia de jornal. O Diário de Pernambuco, em uma de suas edições de julho daquele ano, veicula telegramas e cartas despachadas pelo capitão José Caetano dando conta de “indícios convincentes” da morte de Livino.

O presidente da Paraíba, João Suassuna, recebe informes reservados da polícia através de telegramas que vão esclarecendo a situação.


Encontrada alpercata ensopada de sangue no lugar Areias de Santana. Passagem de Lampião e Antônio Ferreira no lugar Cipó, revelando tristeza e procurando pagar contas de Livino, que não foi visto entre o grupo de cangaceiros”.


Livino, o Vassoura, só morreria oito dias depois do tiroteio na tal Boca da Furna.


Quando podia, ocultar as baixas sofridas pelo bando era uma estratégia recorrente de Virgulino Ferreira, pois estabelecia nas volantes a incerteza do sucesso nos combates. E a morte de Livino representaria um êxito, um trunfo das volantes da Paraíba em combinação com as volantes Nazarenas, cujos integrantes eram inimigos viscerais dos irmãos Ferreira.


Há versões que asseguram que Lampião, após chorar a morte do irmão, a primeira baixa na família, deu a fria ordem:

Cortar a cabeça do irmão e sepultar seu corpo de forma separada para em caso de exumação, tornar impossível a sua identificação.


João Costa. Siga @ajoaosousacosta

Fonte: “Lampião na Paraíba”, de Sérgio Augusto de Souza Dantas

Foto: lampião Aceso

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