Histórias do cangaço: tenente Zé Rufino - o implacável, porém misericordioso

Por João Costa


Descrito por muitos estudiosos do cangaço como estrategista, meticuloso e implacável, o tenente José Osório de Farias, o famoso Zé Rufino, não fazia conchavos quando se tratava de dar combate a cangaceiros, tanto assim que ignorou a famosa anistia dada pelo Estado Novo aqueles cangaceiros que depusessem as armas; aproveitou a deixa do fato de Corisco não ter se entregado, para manter sua escalada de perseguição ao bandoleiro até eliminá-lo.


Tenente José Osório de Farias, tenente Zé de Rufina, sanfoneiro e matador de cangaceiros


Os historiadores também gostam de traçar comparações entre Zé Rufino e Virgulino Ferreira.


Lampião nasceu em Serra Talhada, Zé Rufino no município vizinho de São José do Belmonte, ambos no Pajeú pernambucano; Virgulino arranhava no acordeom, Zé Rufino era músico sanfoneiro e animador de baile, Lampião tinha habilidades como artesão em couro, Zé de dona Rufina, também; Lampião tinha 1.80 de altura, aproximadamente, Zé Rufino era muito alto, se o “rei do cangaço” era moreno e magro, o tenente do mesmo jeito – e as semelhanças param por aí.


Numa entrevista, perguntado quantos cangaceiros matou durante sua jornada, Rufino separou em duas categorias: os que ele realmente matou e os que ele ordenou a execução – não soube quantificar, mas de memória citou:


- Catingueira, Meia-Noite, Sabonete, Quina-Quina, Canjica, Azulão, Zabelê, Pai Velho, Zepelim, Pavão, Barra Nova e Isadora, são os nomes que me recordo, disse Zé Rufino.


Habilidoso para rastrear, emboscar e matar cangaceiros sem piedade, o tenente Zé Rufino, em 1940, contrariou toda e qualquer compreensão possível sobre um matador tido e havido como sanguinolento.


Tenente Zé Rufino(D) com sues homens de confiança, todos ex-soldados de volante


O cangaço já havia chegado ao fim, mas ainda restavam Corisco e Dadá, que não se entregaram, e ainda haviam chacinado a Família Ventura, na fazenda Patos.


Muitos daqueles militares que mataram Lampião e Maria Bonita e mais nove cangaceiros na Grota de Angico, ficaram ricos com o botim do saque aos cangaceiros mortos; a certeza de que Corisco também carregava uma fortuna em ouro, joias e dinheiro e que o casal não se beneficiara da anistia dada por Getúlio Vargas, valia uma nova caçada e corrida ao prêmio.


Aleijado, Corisco é posto fora de combate


Eis que no dia 24 de maio de 1940, o tenente Zé Rufino e seus comandados localizam Dadá e Corisco, na fazenda Pacheco, e Barra do Mendes(BA), logo após o almoço, ocasião em que Corisco, de cabelo cortado e aleijado de um braço, incapaz de manejar um fuzil, selava um burro para seguir viagem foi cercado e surpreendido pelo grito.


- Se entrega, Corisco!


- Eu não me entrego, não! Foi a resposta.


Cristino, o cangaceiro Corisco, ao ser morto estava aleijado e incapacitado de combater


Ato contínuo, uma rajada de metralhadora varreu o terreiro de casa cortando Corisco ao meia, sua companheira Dadá também é baleada no tornozelo, cai e é impossibilitada de levantar por canos de fuzis já na sua cara.


- Vamos cortar a cabeça dessa cobra! Berrou um dos soldados.


Mas uma voz de comando, imperiosa, interrompeu o desfecho macabro.


- Não toquem nela! Não se atrevam! A voz e a ordem do tenente Zé Rufino apesar de incompreensível pelos companheiros de farda, soou determinante.


- Podem me matar, estou pronta. Mas não deixe me judiar, Zé Rufino. É só o que peço, o me dê uma arma pra ver... Teria dito Dadá em meio a xingamentos.


- Não vai pegar em arma nenhuma! Respondeu Zé Rufino, sereno e no controle da situação.


- Então corte você mesmo, disse Dadá, como se transferisse a sua sentença para as mãos de Zé Rufino.


- Arranjem um meio, vamos levar os dois para um hospital, Gritou Zé Rufino.


Ato de misericórdia


Um gesto misericordioso e de grandeza de Rufino, diante de uma Dadá e de um Corisco inutilizados militarmente, incapazes de se defenderem. Uma situação que viria a se repetir num futuro distante entre Sérgia Ribeiro e José Osório de Farias de maneira invertida.


Corisco morreu sobre um carro-de-boi quando era transferido para um hospital, Dadá recebeu atendimento médico, mas teve uma perna amputada porque o ferimento havia gangrenado.

Em um determinado momento de sua vida, 28 anos após fatos ocorridos na fazenda Pacheco, a revista Realidade organizou e realizou um encontro entre Dadá e seu algoz, o implacável tenente Zé Rufino.


Sérgia Ribeiro, Dadá, sobreviveu para enterrar os ossos de Corisco e encarar Zé Rufino no leito de morte do militar


O ano era 1968 e Dadá foi a esse encontro com Zé Rufino já na velhice. Ele, convalescendo, incapaz até de ficar de pé.


Disse Rufino:


- Não queria ter matado Corisco, tudo ocorrera devido ao combate.


Dadá não se furtou em dizer cara a cara.


- “Mas você sabe, mais que ninguém, que foi de emboscada, você sabe”.


Depois disso, Dadá deixou o quarto de um Zé Rufino moribundo, seguiu seu rumo se amparada em uma muleta, mas altiva com seu olhar penetrante, uma mulher vencedora; uma heroína do seu tempo.


Rufino encarou o seu destino, inválido, em cima de uma cama.