Irmãos Ferreira: a forte influência de dois tios para o ingresso de Lampião no cangaço

João Costa


A saga de Virgulino Ferreira Lampião entre os anos 1928 – 1938 é contada exaustivamente em prosa, verso e vídeos; entretanto, a aurora do cangaço lampiônico ainda é intrigante, pouco explicada, por isso é preciso recorrer sempre ao essencial “Apagando Lampião – Vida e Morte do Rei do Cangaço”, de Frederico Pernambucano de Melo, como também outros autores que se dedicaram a pesquisar esse período do cangaço.


Bando de Lampião: sentados da esquerda para direita Antônio, Virgulino e Antônio do Gelo, irmão de criação e outros


O bom sobre a narrativa em torno de Virgulino Ferreira são os flashs em torno das famílias em conflito: Ferreira e Nogueira, as origens da rixa, os primeiros entreveros, os relatos de memória feitos pelo José Saturnino, décadas depois, claramente sem ressentimentos e propenso jogar luz onde há sombra histórica.


O próprio Virgulino Ferreira, em entrevista concedida em Juazeiro do Norte, em 1926, tratou de fantasiar sua trajetória ao afirmar que tornou-se cangaceiro para vingar a morte do pai José Ferreira.


José Saturnino, tido como primeiro inimigo de Lampião, em foto rara feita em 1970


Mas durante a pendenga judicial entre José Ferreira e os Nogueira, ata de uma audiência judicial, datada de 3 de outubro de 1917, uma testemunha de nome José Rufino Gomes ao se referir aos filhos de José Ferreira assinalou:


“São de bons costumes, embora ultimamente vivam sempre no cangaço”.


O senhor José Ferreira, pai de Lampião, de fato, pagou com a própria vida pelo destino escolhido pelos filhos Virgulino, Antônio e Levino.


O velho Ferreira foi morto pela volante do tenente Lucena em maio de 1921, quando estava na residência da família Fragoso; a casa foi cercada pela volante de Lucena e, segundo relato da polícia, “após o tiroteio resultaram mortos José Ferreira e Sinhô Fragoso, ficando baleado Zeca Fragoso e saindo ileso Luís Fragoso”.


Manoel Lopes : Lampião criado por um tio


É pouco conhecido da história do cangaço, que Virgulino Ferreira, já na juventude, assinava o seu nome como Virgulino Lopes de Oliveira, em consideração a um tio de nome Manoel Lopes, que, segundo José Saturnino, foi quem de fato criou Virgulino.

Esse Manoel Lopes chegou a ser inspetor de quarteirão para a Serra Vermelha, em Vila Bela. Nessa condição de oficial da polícia, realizava diligências combatendo roubo de animais, tendo como auxiliares seus sobrinhos Virgulino Ferreira e Antônio. Pois é Lampião já colocou suas armas à serviço da lei.


Antônio Ferreira, não usava chapéu nem roupa de cangaceiro, embora fosse chefe de bando


Relatam que o ódio dos irmãos Ferreira à família Nogueira se deve, inicialmente, a esse tio de Lampião.

Preso para averiguação quando da ocorrência de um crime na região onde morava, fora “espancado e humilhado” ao ser deixado sob custódia da família Nogueira, enquanto a diligência policial apurava os fatos. Mas foi José Saturnino quem colocou o dedo na ferida ao relatar sua rixa com os irmãos Ferreira num relato gravado para Frederico Pernambucano de Melo nos anos 1970.


“Essa briga entre os irmãos Ferreira e os Nogueira acabou por cair no meu colo, por ter casado na família”. E mais: “até casar com a filha de João Nogueira, eu não tinha encrenca com Virgulino: nascemos e nos criamos juntos, brincando sem um desse uma bofetada no outro”. E conclui: “Quem arrastou isso pra riba de mim foram os Nogueira”.


Mathildes: Outro tio com muita influência sobre os irmãos Ferreira


Mas os irmãos Ferreira tinham um outro tio, que no sertão se denomina “tio postiço” por questões de consideração e afeto, chamado Antônio Mathides, inspetor de quarteirão e nome abalizado na região do Poço do Negro, em Nazaré do Pico.

Mathildes caiu em desgraça por perseguição política, vindo a perder o cargo, lá por volta de 1919, a ser denunciado por dar guarida a cangaceiros da região. Acabou preso e espancado diante da esposa e filhos por uma volante que tinha como cabecilha um certo Antônio Maquinista.


Antônio Mathiltes sempre responsabilizou José Saturnino e os Nogueira pela denúncia feita contra ele e que resultou na perda do cargo, respeito e prestígio na região do Pajeú – denúncia contestada pelos moradores da região.


Primeira formação de bando sob comando de Lampião


A família Ferreira já encontrara abrigo sob proteção do coronel Ulisses Lima, em Alagoas, quando Antônio Mathildes também chega em busca de trabalho e proteção.


Essa reaproximação entre Mathildes e a família Ferreira, resultou na formação de um grupo de cangaceiros, aí sim, com o objetivo de ajustar contas com os inimigos do Pajeú, no caso a família Nogueira e José Saturnino, autor da denúncia que arruinara com Mathildes.


Assim, em agosto de 1920, forma-se um grupo liderado pelos três irmãos Ferreira, mais Baliza e Gato, o Antônio Vitorino, que integravam o bando de Sinhô Pereira; os irmãos Benedito, José, Manoel e Olímpio, que passam a atender pelas alcunhas de Pirulito, Caneta e Carrocel; um tal de Higino, também parente de Mathildes e outros. No total 19 cangaceiros – O primeiro bando dos irmãos Ferreira sob a liderança do tio Antônio Mathildes.

Fonte: Apagando Lampião – De Frederico Pernambucano.



Historiador Emanoel Arruda sobre coito de Lampião em Patos de Irerê, na Paraíba.

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