"Lampião, O Rei do Cangaço", de Benjamim Abraão - o filme que irritou Getúlio e o Estado Novo

No início dos anos 1960, o cineasta Glauber Rocha, lançou o bordão “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, que se transformou num lema do chamado Cinema Novo. Mas o que nos anos sessenta era um lema, em 1936 foi uma obsessão do libanês Benjamim Abrão que se tornou realidade: filmar Lampião e seu bando.


O filme de Glauber, “Deus e o Diabo na Terra dos Sol”, é uma ficção baseada em Corisco e no Tenente Zé Rufino; já “Lampião, o Rei do Cangaço”, de Benjamim tornou-se o documentário mais avassalador da história do cinema brasileiro, justamente por não ser ficção e ter como personagem real Virgulino Ferreira da Silva, Lampíão.


Libanês Benjamim Abraão: "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça"


Após a morte do padre Cícero, em 1934, o visionário e empreendedor Benjamim parte, sem fazer segredo, em busca de uma entrevista com Lampião - que ele conhecera em 1926, quando da visita de Lampião ao Juazeiro.


A obstinada “caçada” de Benjamim Abraão a Lampião com a finalidade expressa de entrevista-lo durou 11 meses. O próprio Virgulino Ferreira já tomara conhecimento antecipado do propósito do libanês, geralmente tratado como fotógrafo “turco”. Em março de 1936, nos arredores de Pau Ferro, atual Itaíba, região de Águas Belas, Pernambuco, Benjamim Abraão acaba interceptado por dois cangaceiros: Juriti Marreca.


- É você o Turco? Perguntou Juriti.


Após a confirmação e sem muita conversa, o libanês, diante de duas bocas dos fuzis de Marreca e Juriti, escutou apenas a ordem irrecusável e pela qual tanto esperava.


- Nos acompanhe!


Benjamim Abraão posa ao lado de Maria Bonita e o capitão Virgulino Ferreira, ao tempo em que rodava o filme


Após meia légua de caminhada, Benjamim é colocado frente a frente com o Rei do Cangaço.


- Cabra véio, não sei como você veio bater até aqui com vida; e chegou em boa hora: vamos comer! E botem aqui uma dose de conhaque o turco! recepcionou Lampião.


O entrosamento imediato entre Lampião e Benjamim Abraão foi de causar inveja. O “Turco” exibiu todo equipamento que conduzia: máquina fotográfica, rolos de filmes, tripé e filmadora. Equipamentos que Lampião, “cabreiro”, fez questão de testar antecipadamente.


Benjamim chegou a relatar depois o que o impressionou: a facilidade como realizou o seu trabalho, e o grau de intimidade que se estabeleceu. Assim é descrito pelo historiador José Bezerra Lima Irmão, o encontro entre Lampião e Benjamim:


- Cabra véi, estou aqui com onze homens e duas mulheres – e apontado o dedo, Lampião fez as apresentações.


- Este é Juriti, Sabonete, Vila Nova, Marreca, Elétrico, Cachiado; este é Moderno, Gorgulho, Barra Nova, Pitombeira e Luiz Pedro. E aquela é Maria Oliveira, minha mulher, e aquela é Neném, esposa de Luiz Pedro.


O fato é que a reputação do libanês o antecedia; tinha credenciais. Trazia no currículo o fato de ter sido secretário particular do padre Cícero e, ao conversar tête-à-tête com Lampião, não tergiversou, deixando claro que se tratava de negócio, de oportunidade dos dois ganharem dinheiro; além de deixar o Capitão mais famoso do que realmente já era.


No filme do libanês Benjamim Abraão, Lampião exibe o jornal O Globo, ao tempo em que usou roupas novas para fotos


Foram oito meses de convivência e filmagens. E como homem de visão, nada escapou da percepção do “Turco”. Ensaiou e filmou tiroteios “simulados”, festas, intimidades afetivas, momentos de rezas e rega-bofe. Benjamim Abraão transformou as diversas fazendas da região de Canapi, Poço Redondo (SE); como também áreas da fazenda Capim nos arredores de Piranhas(AL) em set de filmagens.


As sequências cinematográficas captadas pelo libanês são impressionantes pelo simples fato de resultarem de um roteiro elaborado. Há tomadas de Lampião dançando com Maria Bonita, cenas em que ela cuida das madeixas do marido; fotos de todos e de todas bem elaboradas em poses e com figurinos novos. Nada escapou ao clic ou à câmera do “turco”.


Das fotos que ficaram para a história, vemos um Lampião bem informado, lendo a revista A Noite, tendo na capa a atriz de Hollyood e nadadora Ann Evers, que se preparava para as Olimpíadas de Berlim; imagem de Maria Bonita posando elegantemente de pernas cruzadas, bem ao estilo da atriz Greta Garbo; casais coadjuvantes, marchas. O cangaço real, não o imaginado.


Benjamim foi além de Lampião, ele também entrevistou Corisco e Dadá


Deixou como legado para a historiografia do cangaço, fotos bem elaboradas de Corisco e seu bando com a cadela Jardineira, tendo Dadá nas fotos de vestido bem cortado e ajustado ao corpo, pois estava grávida. E mais ousadia:


Corisco e Dadá (em estado de gravidez) em pose e entrevista para o libanês Benjamim Abraão, em Piranhas(AL)


O libanês obteve de Lampião – por escrito – uma declaração de exclusividade.


“Ilmo, Sr. Benjamim Abraão,

Saudações;

Venho lhe afirmar que foi a primeira peçoa que conseguiu filmar Eu Com todos os meu pessoal cangaceiros, filmando assim todos us movimento da Noça Vida Nas catingas dos Sertões Nordistinos. Outra peçoa Não Conseguiu nem conseguirá, nem mesmo Eu consintirei mais.

Sem Mais, do amigo

Capm Virgulino Ferreira da Silva

Vulgo Capm Lampião


As tomadas externas nos arredores de Piranhas ocorreram com total conhecimento do tenente João Bezerra, o mesmo que dois anos após as filmagens, chefiou a volante que matou o próprio Lampião e mais nove cangaceiros, ainda segundo relato de Lima Irmão.


O filme de Benjamim Abraão “Lampião, o Rei do Cangaço” irritou o ditador Getúlio Vargas, pois os jornais e revistas foram além das críticas, ridicularizando a “ineficiência” da polícia do Estado Novo no prometido combate ao banditismo no Nordeste, do qual Lampião era o maior protagonista.


O sucesso de Benjamim Abraão foi inevitável e o “turco” chegou a recusar proposta de compra de direito de reprodução e distribuição feita por um estúdio de Hollyood pela bagatela de US$ 5 milhões.


Benjamim Abraão, ao lado do padre Cícero Romão, de quem foi secretário particular, em Juazeiro do Norte, Ceará


O filme e as fotos tornaram-se um “escândalo”. A reação do Estado Novo foi estabelecer a censura e confiscar negativos de fotos e cópia do filme, de propriedade da Aba- Film e de Benjamim. O programa radiofônico “A Voz do Brasil”, edição de 2 de abril de 1937 foi ao ar com uma declaração e justificativa de Lourival Fontes, chefe do DIP – Departamento de Imprensa e Propagada para o confisco e a censura:


O filme de Benjamim Abraão atentava contra os “créditos da nacionalidade”.

João Costa


Imagens de Benjamim Abraão, 1936


Fontes: “Lampião – a Raposa das Caatingas”, de José Bezerra Lima Irmão.

“Apagando Lampião”, de Frederico Pernambucano de Melo.

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