Luiz do Triângulo e Clementino Quelé, dois ex-cangaceiros em conflito na Revolta da Princesa, 1930

Por João Costa

Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, morreu crivado de balas em julho de 1938, na Grota de Angico, em Sergipe, após 20 anos ininterruptos no comando de bandos de cangaceiros numa trajetória de razias, vinganças, combates com a polícia de 7 estados do Nordeste e fugas espetaculares tornando-se alvo de centenas de biografias, fonte de inspiração para milhares de livros, uma façanha que não protagonizou sozinho.


Visita Casarão em ruínas da família Diniz, palco de combates durante a Revolta de Princesa


Podemos entender o cangaço como uma guerra de guerrilha que se arrastou entre 1910 a 1938 e mobilizou centenas de homens da lei e, principalmente, foras da lei, muitos desses atuando dos dois lados em momentos distintos e por razões particulares.


Esta crônica trata de apenas dois deles:


Clementino José Furtado, Quelé e Luiz do Triângulo; ambos cangaceiros de Lampião que tomaram rumos diferentes de Virgulino Ferreira, protagonizaram combates icônicos, inclusive em revolta política, a exemplo da Guerra de Princesa, entre fevereiro e outubro de 1930.


Um senhor da guerra de nome Sebastião Pereira e Silva, o Sinhô Pereira, deixou o cangaço em 1922, ungindo em seu lugar como chefe de bando Virgulino Ferreira da Silva, Lampião.


Sinhô Pereira, aos 26 anos, não deixou o cangaço sozinho. Ele seguiu para Goiás em companhia de um primo, também cangaceiro, chamado de Luiz Padre.


Um outro primo, chamado de Luiz Pereira de Souza, ou Luiz do Triângulo, preferiu seguir carreira solo liderando seu próprio bando, promovendo algumas razias em coalização com o bando de Lampião, para depois abandonar o cangaço

Sem alarido, atravessou a divisa entre Pernambuco e Paraíba, deixando para trás seu passado de cangaceiro no Pajeú pernambucano, para viver sossegadamente na Paraíba, sob a proteção do famoso e poderoso deputado estadual e coronel José Pereira, em Princesa Isabel(PB).


Casa do ex-cangaceiro e chefe militar na Revolta de Princesa, Luiz do Triângulo, Patos de Irerê


Luiz do Triângulo fincou raízes no Distrito de Patos de Irerê, bem no sopé da Serra do Pau Ferrado, divisa com Triunfo(PE), vivendo como “cangaceiro manso”, trabalhando na agricultura, cirando animais, até voltar ao campo de batalha, em 1930, atendendo um apelo irrecusável do coronel José Pereira, naquele momento arregimentando homens para uma revolta contra o governo da Paraíba.


No desenrolar da Revolta de Princesa, rapidamente Luiz do Triângulo saiu do anonimato para tornar-se um dos chefes militares da sedição, tendo ao seu comando nada menos que 300 homens.


Sim, e Clementino Quelé?


No cangaço Clementino José Furtado atendia pela alcunha de Quelé ou “Tamanduá Vermelho”: entrou em conflito com outro cangaceiro de alcunha “Meia Noite” e em rota de colisão com o chefe do bando, Virgulino Ferreira da Silva, tornando-se, acreditem, inimigo figadal de Lampião.


Ficha de cadastro de Clementino Furtado na Polícia Militar da Paraíba


Quelé fez o mesmo percurso de Luiz do Triângulo. Deixou o Pajeú Pernambucano, atravessou a Serra do Pau Ferrado em busca de proteção em Princesa Isabel, exatamente do poderoso coronel José Pereira, que o alistou na Polícia Militar, onde ingressou já na condição de sargento e como cabecilha de volante.


Sargento e ex-cangaceiro Clementino José Furtado, um dos ícones da Revolta de Princesa


Nessa condição de chefe de volante, Quelé travou mais de 20 combates sanguinolentos contra Virgulino e bando; a história registra que foi sua volante a primeira a chegar em Mossoró(RN) poucas horas após Lampião deixar a cidade, no famoso ataque de junho de 1927.


Mas a Revolta de Princesa guarda seus mistérios a aguçar a inquietação de muitos historiadores e pesquisadores ainda hoje.

O coronel José Pereira trouxe para junto de si Luiz do Triângulo, mas não seduziu o sargento Clementino Quelé, que preferiu permanecer leal ao governo e a corporação a qual prestava serviços, primeiro como volante contratado, depois como sargento.


Os idos de março de 1930 serviram para colocar frente a frente, mas combatendo por lados opostos, dois dos melhores ex-cangaceiros de Lampião: Clementino Quelé e Luiz do Triângulo. Na chamada “Batalha do Casarão de Patos”.


À frente de 60 soldados da Polícia Militar, o sargento Clementino Quelé tomou de assalto o casarão da família Diniz, após raptar duas mulheres e mantê-las como refém: Alexandrina Diniz, esposa de Marcolino Diniz e chefe militar da revolta e a senhora Mitonha Pereira, esposa de Luiz do Triângulo.


Objetivo: Marchar sobre Princesa usando as duas senhoras como escudos humanos e com isso forçar a rendição dos revoltosos.


Não logrou êxito.


O casarão foi cercado por mais de 200 homens sob o comando de Luiz do Triângulo e do próprio Marcolino Diniz. O tiroteio que se seguiu varou a noite açoitada de chuva, raios e trovões.


Mais de 50 soldados foram mortos nesse combate; o sargento Quelé conseguiu furar o cerco, mas antes de abandonar o casarão deixou no colo de Alexandrina Diniz uma granada pronta para ser detonada – o que não ocorreu por conta da munição ruim e molhada pela chuva.


Visita aos sítios históricos de Patos de Irerê orientada pelo historiador Emanoel Arruda.