Mãe Loúrdes, o poeta Cazuza Ferreira, Pombal e o movimento político de 1915

José Tavares


Minha avó, Benigna Lourdes de Souza, que os netos a tratava carinhosamente por “mãe Loúrdes”, tinha uma memória prodigiosa. Nasceu em 4 de outubro de 1901 e faleceu no dia 21 de abril de 1995. Filha de Filemon Estevão de Souza e Ana Benigno de Souza, foi uma pessoa que teve intensa participação nas campanhas políticas e nos eventos sociais e religiosos da cidade de Pombal. Foi através de minha avó paterna, ouvindo suas narrativas ricas em detalhes, que desenvolvi o senso de curiosidade que me levou ao interesse pelo conhecimento da história dos meus antepassados.


Igreja do Rosário e Praça Getúlio Vargas, em Pombal


Ela tinha 14 anos de idade quando ocorreu a histórica campanha de 1915, em que Epitácio Pessoa e Walfredo Leal travaram uma ferrenha disputa pela hegemonia política do Estado da Paraíba. Naquele ano, como em todos os recantos do Estado, a forças políticas de Pombal encontravam-se divididas, existindo, nos bastidores, uma acirrada luta de forças entre os Walfredistas, representados pelo veterano coronel João Leite Ferreira Primo (coronel João Leite), e Epitacistas, sobre o comando do principiante médico José Ferreira de Queiroga (dr. Queiroga).


A calçada da residência dos seus pais, localizada a Rua do Comércio, atual coronel João Leite, era um ponto de encontro dos mais próceres representantes da sociedade local, que invariavelmente se reunião durante a noite, para tratar dos mais variados assuntos, principalmente sobre política. Mãe Loúrdes, que sempre foi uma pessoa curiosa que gostava de ficar bem informada sobre os últimos acontecimentos da política, a fim de ouvir as conversas, estrategicamente posicionava uma cadeira por trás da janela da frente, já que não era de bom tom participar de conversa dos adultos.


Assim, mãe Loúrdes pode testemunha o poeta Cazuza Ferreira, um dos frequentadores da calçada da casa dos seus pais, improvisar um poema relatando, em tom de ironia, as movimentações dos mais proeminentes líderes do município. Apesar de ouvir uma única vez, a jovem guardou este poema em sua extraordinária memória. Vez por outra, recebia solicitações para declamá-la, no que sempre atedia, abrindo vastos sorrisos dos ouvintes. Ao saber do sucesso da filha do seu amigo Filemon, o próprio autor, Cazuza Ferreira, a pediu que ela recitasse os seus versos, e depois, com um sorrido no rosto, confessou não se lembrar de cor da sua própria obra poética.


Enquanto esteve lúcida, já havendo ultrapassado a barreira dos 90 anos de idade, me Lourdes ainda recitava o poema que ouviu aos 14 anos. Inclusive, seu filho caçula, o economista e professor da UFPB, Ignácio Tavares de Araujo, gravou uma longa entrevista na qual ela, já com idade bastante avançada, recita o referido poema.


Eis a transcriação do poema, seguida da identificação do autor, bem como, das personalidades citadas:


Vem cá, oh Souza, ex-Secretário

Sustenta a coisa contra o Vigário

És um Walfredista de grande valia

Olha os Epitacistas na sacristia!


Vem cá Valério, homem sem gelo

Eu não te quero neste atropelo

Pelo mesmo quero ser confessado

E em vós espero ser perdoado!


Vem cá Pião meu partidário

Na traição, eis o calvário

Chora dengoso e finge raposa

Estas ansioso para ser a coisa!


Vem cá Simplício, lá da Lagoa

Botou feitiço em gente à toa

Em José Vieira, em José Queiroga

Em Lima Ferreira, homem sem toga!


Vem cá Mamede do sítio Ferro

Isso procede por ser emperro

Vem cá Mamede, passe pra rua

Limpe a parede, seu cara de pua!


Vem cá Josué, mano amado

Bicho de fé e respeitado

Josué amado és tu só

Mas toma cuidado com Matavó!


Vem cá Nequinho, seu paspalhão

Toma o caminho do primo Janjão

Vem cá Nequinho, seu coletor

Quebra o casquinho do teu senhor!


Quem era quem


Poeta Cazuza Ferreira: José Ferreira de Cazuza nasceu na Fazenda Tanques, originalmente pertencente ao município de Pombal, depois passando a pertencer aos emancipados Municípios de Malta e Vista Serrana, respectivamente. Era de uma família cujos membros se destacavam pela inteligência acima da média.

Personalidades citadas no poema:


Souza: Filemon Estevão de Souza, ocupava o cargo eletivo de Conselheiro Municipal, nos dias de hoje equivalente a vereador; foi secretário geral da Prefeitura de Pombal, na gestão do prefeito João Leite Ferreira Primo. Apesar de ser sacristão do padre Valeriano, já havia decidido que seja qual fosse a posição do padre iria seguir o coronel João Leite, por que tinha uma imensa gratidão. Quando prefeito, em 1895, o coronel João Leite nomeou Filemon, um jovem negro, com apenas 23 aos de idade, para Secretário Geral, o mais importante cargo do seu governo. Filemon foi o primeiro negro a ocupar um cargo de livre nomeação na administração pública, como também um cargo eletivo, ao se eleger membro do Conselho Municipal.

Valério: Padre Valeriano Pereira de Souza, pároco de Pombal, presidente do Conselho Municipal, equivalente a presidência da Câmara de Vereadores.


Pião: Serapião Pereira de Souza, irmão do padre Valeriano, igualmente exercia o mandato de Conselheiro Municipal.

Simplício: Professor, conselheiro Municipal representado o povoado de Lagoa, era ligado politicamente ao grupo de Dr. Queiroga.


José Vieira: Coronel José Fernandes Vieira, fazendeiro e líder político da região do povoado de Malta, ligado ao grupo do Dr. Queiroga.


José Queiroga: José Ferreira de Queiroga (Dr. Queiroga), médico, rompeu com o chefe político coronel João Leite, assumido a liderança do grupo Epitacista, cuja vitória o alçou a condição de chefe político de Pombal.


Lima Ferreira: Coronel Antonio Ferreira de Lima, fazendeiro e líder político da região do povoado de Malta, irmão do poeta Cazuza Ferreira. Era o então prefeito de Pombal. Numa época em que não era tão usual os gestores fazerem as prestações de contas públicas, seu irmão, Antonio Ferreira de Lima, deixou registrada manuscritamente toda contabilidade de sua administração frente a Prefeitura de Pombal. Pai do Padre Joaquim de Assis Ferreira (Padre Assis), saudoso vigário da cidade de Patos que se destacou pelo alto nível de eloquência.


Mamede: Major Antonio Mamede Pereira de Oliveira, líder político fazendeiro, proprietário do sítio Pau Ferrado, era pai de Jardelina Nobrega, que mais tarde veio a se casar com o cangaceiro Chico Pereira (Francisco Pereira Dantas. No poema o poeta ironiza o major por ele não fazer a pintura no seu majestoso casarão, localizado na rua Nova, atual coronel João Carneiro.


Josué: Josué Bezerra de Souza, filho de do influente fazendeiros Antonio Bezerra, juntamente com seu irmão Josué Bezerra de Souza representavam os interesses políticos da família. Assim como o irmão, era ligado politicamente ao coronel João Leite.


José Tavares é escritor e pesquisador do cangaço e da historiografia de Pombal


Matavó: Francisco Bezerra de Souza, irmão de Josué Bezerra. Diferente do irmão, que era mais comedido. Ganhou o apelido de Mata Avó porque nasceu no dia que sua avó faleceu. Sem esperar pela decisão do Coronel João Leite, foi o primeiro da família Bezerra a se posicionar a favor de Epitácio Pessoa.


Nequinho: Manoel Dantas Filho era coletor de rendas no povoado de Malta, sogro de Nozinho do Padre (Manoel Arnaud), um dos mais assíduos frequentadores da calçada de Filemon, que depois vem a lhe substituir como sacristão de padre Valeriano, passando a ser chamado Nozinho do Padre. Era irmão do odontólogo e político Chateaubriand Arnaud (Dr. Chatô), que era casado com Dalva Carneiro, irmã dos Ruy e Janduhy Carneiro, Nozinho era pai de Hildo de Assis Arnaud, ex-prefeito de Pombal (1973/76).