Maria de Déa: empoderamento feminino e rivalidade em meio a tiroteios, amor, sexo e sororidade

Para compreender o papel da mulher no cangaço é preciso desapego em relação aos clichês que brotam das academias, do cinema e TV ou dos romances. Ao contrário das mulheres urbanas – ao final do século passado - que precisaram se masculinizar para conquistar espaço, sobretudo profissional, ao mesmo tempo sem abdicar o lado da dominação de “senhora do lar”, e provedora da sexualidade; elas, as 30 mulheres (a maioria baianas) do cangaço foram, de certa forma, sagradas. Isso no início do século XX.

Imagem: Maria Bonita em pose para o libanês Benjamim Abraão


Parece um paradoxo, mas as mulheres do cangaço não se masculinizaram – embora tenha gerado o termo “mulher macho”. Elas sequer cozinhavam, não se transformaram em objeto sexual de uso coletivo dos homens; vestiam saias curtas para os padrões da época, fumavam bastante e eram fissuradas em perfumes e joias. A vaidade como lenitivo na caatinga.


Vejamos o caso de Maria Gomes de Oliveira, ou “Maria de Déa”, “Maria Déa”, “Santinha”, “Maria do Capitão” ou “Maria Bonita” como o mundo a conhece. Neste século XXI, olhando criticamente para trás, algumas citações são reveladoras como Maria Bonita é descrita por escritores masculinos:


Casal Corisco e Dadá(E) chefiava subgrupo de cangaceiros em imagem registrada no Raso da Catarina, em 1936

O guerreiro cruel que também amava. O Paris-Soier dedica quatro colunas à morte de Virgulino Ferreira da Silva com um artigo assinado por Jean Gear Fiyry, o qual conclui dizendo:


“Lampião, o invulnerável Lampeão, era cruel que também amava. E esta ferida de amor matou-o talvez melhor do que a bala da volante”, (Jornal de Pernambuco, ago. 1938)


Em outras palavras, Lampião e os demais facínoras do cangaço já não eram mais os mesmos depois da entrada de mulheres no bando. Há conjecturas que a reunião de Angico era de despedida, alguns estavam deixando o cangaço, inclusive o líder.

Maria Bonita, a companheira de Lampião, que com ele morreu, tinha por nome Maria de Déa. Era uma cabocla de grande beleza, de lindo perfil, de curvas perfeitas. Nasceu na Bahia, na fazenda Malhada da Caiçara, em Geremoabo. (Diário de Pernambuco -1938).


Ainda do jornal pernambucano. Em 1937, esta manchete despertava a atenção do mundo, com uma descrição que hoje seria tomada como machista. “Maria do Capitão – Madame Pompadour do Cangaço”.


Benjamim Abraão que a conheceu e fotografou, a descreve como a única pessoa que tinha influência sobre o capitão Lampião.

- Os asseclas de Lampião rendem-lhe as mais servis homenagens, tudo fazendo para o não desagrado dessa Madame de Pompadour do cangaço. Isso por ser Maria Bonita a amante do Rei e doidivana da corte das caatingas.


Sila, companheira do cangaceiro Zé Sereno, foi confidente de Maria Bonita nos últimos dois anos do cngaço


Relatam que Sinhô Pereira, ex-chefe de Lampião, e o Padre Cícero, desaconselharam Lampião em permitir mulheres no bando. Por superstição, ou simplesmente porque a mulheres supostamente representariam um estorvo na guerra. Mas Virgulino, ao observar de longe a passagem da Coluna Prestes, a qual fora convocado para combater, deparou-se exatamente com outra realidade, que ele resolveu mais tarde copiar.


- Me dei conta que mulher não atrapalha, nem na guerra, disse Virgulino certo dia.


Lampião abriu para que o cangaço fosse transformado num espaço feminino.


A presença de mulheres não bando não amenizou questões como vingança, brutalidades, massacres, saques e sequestros, mas o ingresso delas criou uma aura de romance, sexo e amor. Consequentemente, deu um toque de humanização, e nenhum pesquisador esconde o fato de que mulheres como Maria Bonita e Dadá assumiram protagonismo tamanho o suficiente para dominar seus guerreiros-amados.


- Ninguém suportava Dadá, ela dominava Corisco e o Capitão maneirava muito diante de Maria de Déa.


Teria dito Zé Sereno anos depois do cangaço. Sereno é outro cangaceiro que terminou sua vida ao lado de Sila, também mulher das armas do bando de Lampião.


Encerremos com relatos jornalísticos sobre o massacre de Angico. “A cabeça de Maria Bonita, entretanto, é a de melhor conservadas. A mulher de Lampião não foi atingida por nenhuma bala no rosto, conservando uma fisionomia serena, mostrando ter sido, em vida, um belo tipo de cabocla nordestina, com as linhas do rosto perfeito, lábios finos e duros”.


E mais:


“Bonita ainda depois de morta, serena. E quando o público desfilava diante das cabeças expostas, muita gente se emocionou, vendo a cabeça de Maria Bonita, a sertaneja que fizera Lampião um herói ao seu modo, seu companheiro de 12 anos, enfrentando soldados e vencendo a galope as caatingas incendiadas pelos perseguidores”.


Mulheres cangaceiras em roupas elegantes; elas não cozinhavam e competiam entre sí no uso de joias e perfumes


Sila foi confidente de Maria Bonita, Lídia, a mártir encantadora e transgressora dos padrões de fidelidade; Durvinha, aquela que manteve amor eterno por Virgínio, mesmo terminando sua vida ao lado do famoso Moreno; Dadá a menina que se tornou lendária e que rivalizava com Maria Bonita.


- Bacana que só ela, só quer ser mais, disse certa vez Dadá. Nada de ciúmes, apenas coisa de mulher para mulher.


Mas onde está o sagrado feminino, o mote inicial do artigo? Simplesmente na sororidade, na postura agregadora das mulheres do cangaço, com autoridade, confiabilidade sem impor autoritarismo, tornaram-se lendas femininas.


Imagens de Benjamim Abraão, feitas do Raso da Catarina. Acervo Abba Filmes

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