Relato quase impossível sobre Meia Noite - um cangaceiro apaixonado e difícil de matar

Ao conhecer e comparar os relatos da história do cangaço que emerge de várias fontes, o simples leitor tem dificuldade em separar fatos e ficção. E isso é bom, porque nos dá escolhas para desenvolvermos simpatias por personagens tão controversos. O relato a seguir, extraído do livro “Lampião – a Raposa das Caatingas”, de José Bezerra Lima Irmão é extraordinário; a partir do ponto.


Imagem: Meia Noite (E) em pé, na formação do bando de Lampião; uma briga pelo saldo do saque a Sousa(PB)


Após o ataque a Sousa(PB), sob o comando de Livino e Antônio Ferreira, ataque este que rendera 200 contos de réis em dinheiro vivo, o bando volta para São José de Princesa, divisa entre Paraíba e Pernambuco, localidade onde Lampião descansava e se recuperava de ferimento sofrido no pé, sob a proteção do coiteiro Marcolino Diniz.


Um constrangimento surge no bando: o cangaceiro Antônio Augusto Correia, vulgo Meia Noite, descobre que havia sido roubado na quantia de nove contos de réis, enquanto dormia.


Meia Noite suspeitou que havia sido roubado por Livino e Antônio Ferreira. Sentindo-se ludibriado, desencadeou uma tremenda confusão a ponto de Lampião interferir para acalmá-lo. Ressarciu Meia Noite com a mesma quantia que haviam lhe roubado, mas o cangaceiro não ficou satisfeito, seguiu esbravejando, e Lampião decidiu impor uma condição: que Meia Noite entregasse suas armas – o cabra estava bravo demais.


Coronel Marcolino Diniz(C), da região de Princesa Isabel e seus cabras; teria ficado com 80 contos como depósito

Lampião era tratado por Meia Noite, pelo apelido carinhoso de “Nego Véio”, uma vez que eram companheiros de armas de longa data. Alucinado que esse argumento de entregar suas armas, Meia Noite reagiu.


-“Se tiver homem no meio dessa mundiça, que venha tomar minhas armas! Inclusive você também, Nego Véio, seu filho de uma égua!”, disparou Meia Noite na frente de todo o bando.


O bando estremeceu, esperando pelo pior. Virgulino, então, ajeitou o chapelão na cabeça e falou para Meia Noite pausadamente.


- Meia Noite, você é meu amigo, mas não pode abusar... Já lhe dei o dinheiro que você disse que lhe roubaram, não dei? Apois agora eu quero que vá simbora; eu não quero revoltoso no meu grupo!”, foi a reação de Lampião.

- “Vou simbora mesmo”! Concordou Meia Noite.


- “De hoje em diante não preciso mais dessa bosta! Bando de ladrões safados”, disse o cangaceiro se despedindo do grupo.

Meia Noite tinha um grande amor, uma cabocla chamada Zulmira. Deixando o bando para trás, seguiu para o sítio Tataíra, onde morava sua amada. O cangaceiro era tão apaixonado pela namorada que, como prova de amor, ele chamava carinhosamente seu mosquetão de “Zulmira”.


- Eu tenho dois amores e os dois atendem pelo nome de “Zulmira”, dizia recorrentemente.


Cangaceiro vai ao encontro da amada e acaba delatado por um agricultor


Na noite de 17 de agosto de 1924, Meia Noite foi visto por um agricultor entrando na casa onde Zulmira morava, e este, imediatamente, delatou para a volante que estava estacionada em Princesa.


A volante de Manoel Virgulino, com 12 homens, chegou no sítio Tataíra tarde da noite. O comandante bateu à porta dizendo-se com sede e pedindo água. O próprio Meia Noite, imitando voz de mulher, respondeu que “aquela não era a hora de abrir a porta para estranhos”. Seguiu-se um tremendo tiroteio.


A casa era de taipa e Meia Noite, prevenido, havia perfurado as paredes com vários buracos. De tal maneira que disparava sua arma ora da cozinha, ora do cômodo da frente, depois do pequeno quarto, dando a impressão que havia vários atiradores, mantendo a volante à distância.


No tiroteio cerrado, Meia Noite percebeu a munição escasseando. Temendo pela vida da sua amada Zulmira, abriu negociação com a volante.


- “Vocês aí, vamos fazer um trato! Eu estou com uma mulher aqui, que não tem nada a ver nada. Deixem que ela saia, depois nós continuamos, se comportem como homens! O cabecilha da volante concordou.


- Pode mandar a mulher sair!


Assim, com uma trouxa debaixo do braço, Zulmira deixou a casa. O tiroteio recomeçou.


Para agravar a situação de Meia Noite, chegaram mais duas volantes, lideradas pelos tenentes Manoel Benício e Francisco Oliveira. E depois mais outra. Desta feita, a volante comandada pelo sargento Clementino Quelé.


A força volante, que no início do cerco era composta por 12 soldados, agora tinha 100 homens, sob toques de cornetas, deixando Meia Noite debaixo de uma chuva de balas.


Ali, acossado uma chuva de cacos de telhas quebradas, fragmentos de barro e o fumacê causado pelo tiroteio, Meia Noite conseguiu furar o cerco saindo por um buraco na parede e rastejando como cobra.


Meia Noite escapou ao cerco monumental de cem soldados de volante apenas com um leve ferimento numa perna, nada grave. Mas na fuga, ao pular uma cerca, quebrou o braço direito, exatamente o de manejar o rifle.


Lampião e seu irmão Antônio Ferreira, visita ao Juazeiro do Norte, foto tirada antes de encontro com Padre Cícero


Meia Noite pediu socorro numa casa de um agricultor, que o atendeu prometendo buscar ajuda para tratar do ferimento e do braço. Saiu em busca de socorro, mas quem voltou foi a volante do subdelegado Manoel Lopes Diniz, vulgo “Ronco Grosso”.

Meia Noite ainda reagiu disparando seu parabélum até a munição acabar. Quando a polícia entrou na casa, não encontrou ninguém. No dia 23, Meia Noite foi encontrado morto no Sítio Almas, em Triunfo.


Assim morreu Meia Noite, um sertanejo natural de Piranhas, que cometera seu primeiro crime aos 12 anos de idade. Ele havia permanecido no bando de Lampião de 1921 até 1924. Era alto, franzino, negro e também descendente de índio. O capitão Virgulino Ferreira assim se referia a ele.


- “Meia Noite, sozinho, valia por dez!”


Imagens. Fotos de domínio público

Fonte: “Lampião – a Raposa das Caatingas”, de José Bezerra Lima Irmão.

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