Mortas em combate ou por "justiçamentos morais", mulheres mudaram o padrão de vida no cangaço

Às mulheres do cangaço pode-se atribuir a base do arquétipo da mulher sertaneja por terem sido elas responsáveis pela mudança do paradigma feminino numa região de poucos recursos naturais, assolada por estiagens duradouras, fanatismo religioso, violência extrema, padrões medievais de moral; sem vitimização, lançadas à própria sorte numa “guerra suja”, de guerrilha e sacudida pelas delações, fins violentos.


Imagem: cangaceira Aristéia ingressou no cangaço ao lado de mais três irmãs


Mais das incríveis mulheres do cangaço, sem pieguices, casos pinçados de livros dedicados ao cangaço (na descrição).

Comecemos pela famosa é a trajetória da baiana Durvalina Gomes, a Durvinha, que se apaixonou e fugiu de casa com Virgínio, um cangaceiro bonitão e viúvo, cunhado de Lampião. Após a morte do amado não deixou o cangaço, tornando-se companheira de Moderno até o fim da vida, vivendo na mais absoluta clandestinidade – nem os filhos sabiam do seu passado – pense numa mulher de muitos segredos!


No fim do cangaço pós-Angico foi trágico para Delmira, de Calais, a segunda mulher do cangaceiro João Calais. O casal caiu numa emboscada urdida pelo coiteiro Totonho Preá. Calais levou um tiro na mão e se escafedeu, Delmira foi ferida no abdome, recebeu socorro, mas não resistiu ao ferimento.


No massacre de Angico em 38, estava por lá uma cangaceira chamada Dinda, que escapou, desapareceu sem deixar rastro ou mandar notícia; Dinha foi outra mulher do cangaceiro Delicado e Doninha, de Boa Vista, casal que se entregou e sobreviveu.


Ninguém sabe que fim levou Dória, de Arvoredo, assim como Dulce, de Criança, que também esteve em Angico; Teve a jovem Maria do Santo, chamada de Dussanto, que viveu com Alecrim, cangaceiro que gostava de banhar-se me perfume e que mereceu o apelido de erva aromática


Chocante foi a trajetória das irmãs Eleonora e Aristéia. A primeira casada com Serra Branca encerrou sua vida fuzilada e decapitada; Aristéia sobreviveu para contar história, falecendo aos 98 anos.


Todos falavam, mas não há registro sobre uma cangaceira, “amiga próxima” de Virgulino Ferreira, chamada de Eneida. Ninguém sabe se gostou ou viveu com alguém, mas sua amizade com Lampião ninguém esqueceu.


O cangaceiro Cobra Viva também tinha mulher e se chamava Estrelinha, e Elétrico vivia com Eufrozina e Veado Branco casou Idalina; Jacaré que casou Joana Gomes, e esta, depois de ficar viúva com cangaceiro Antônio de Engrácia.


Era uma sina: a moça saia de casa, seguia o cangaceiro amado, ficava viúva, mas não podia deixar o cangaço e voltar pra casa de maínha, pois isso significava morte certa. O melhor mesmo era se arranjar com um novo amor.


Inacinha, esposa do cangaceiro Gato ( índio Pankararé) baleada e capturada pela volante de João Bezerra


O famoso cangaceiro Sabonete, guarda-costa de Maria Bonita, tinha a sua Josefina Maria e Relâmpago que gostava e vivia com Josefa Maria.


O bando de Lampião também teve uma Julinha, mulher de sangue quente e de ascendência indígena da tribo Pankararé; não estava só e ingressou no cangaço ao lado das irmãs Catarina, Joaquina, Joana, uma Chamada Rosa e a mais nova que se chamava de Sabrina.


Dizem que faziam o tipo “eram de todos e não pertenciam a ninguém”. Logo, não podiam criar raízes porque não havia vaga para solteiras no bando.


Como eram estas irmãs? Se amavam ou seguiam alguém, não há relatos, como também nada se sabe sobre uma bela cangaceira chamada Luazinha, tratada assim no diminutivo por ser mignon, biotipo de mulher pequena, bundinha empinada, seios modestos e rosto angelical.

As Marias foram muitas, mas para fechar, abrindo um destaque para Maria Doréa, ou Dora, de Azulão.


Contam que Azulão, ao ver o capitão Virgulino retornar ao bando depois de um percurso na Malhada da Caiçara, trazia uma mulher, já casada e apartada do marido, chamada Maria de Déa e a apresentou como sua. Azulão não se fez de rogado, imediatamente foi em busca de sua Maria e a incorporou no bando.


O casal teve vida breve no cangaço. Azulão era chegado a fazer suas razias liderando poucos cangaceiros, separados do bando de Lampião. E numa dessas Azulão e seu bando deram de cara com o implacável Zé Rufino e sua volante. Nesse tiroteio escaparam Arvoredo, Calais e um mulher, mas os cangaceiros Cangica, Zabelê, Azulão e sua Maria foram crivados de balas e suas cabeças levadas como prova e prêmio para Geremoabo.


João Costa. Acesse: @joaosousacosta - Instagram.


Fonte: Lampião, as Mulheres e o Cangaço”, de Antônio Amaury

“Amantes e Guerreiras”, de Geraldo Maia do Nascimento


Imagens Benjamim Abraão e Wikipédia


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