Mulheres no cangaço: aventuras amorosas fora da relação eram fatais até para o galanteador

No cangaço, uma escapulida fora da relação estável significativa sentença de morte. O destino trágico para algumas mulheres que ingressaram no Cangaço, lança luz na moral rural medieva que ainda perdura nas relações sociais no Brasil, em que o noticiário, recorrentemente, mostra a sua face mais sangrenta: o feminicídio.


Imagem: cangaceira Durvinha escapou e manteve-se na clandestinidade até os 70 anos.


Pa este fim de semana, segue mais um papo baseado nos livros “Amantes Guerreiras”, de Geraldo Maia Nascimento, e “Lampião: As mulheres e o cangaço”, de Antônio Amaury Correia. Leituras obrigatórias para quem mergulha no tema cangaço tendo as mulheres como protagonistas no fenômeno social mais violento do Nordeste.


Comecemos por Lídia Pereira de Souza, a famosa Lídia, de Zé Baiano, considerada a mais bela entre asas cangaceiras do bando de Lampião, e de quem não há nenhum registro fotográfico.


Essa morena, de Paulo Afonso(BA), foi descrita como “linda, dentes brancos e bem alinhados, lábios carnudos sedutores, cabelos longos e pretos e corpo de curvas perfeitas”. Tinha como companheiro o cangaceiro Zé Baiano, que numa descrição racista e preconceituosa é pintado assim: “negro e feio de nariz afilado, face achatada e queixo comprido”.


Por outro lado, Zé Baiano tinha um diferencial que também era seu charme: era agiota com muito dinheiro espalhado nas mãos de coiteiros e comerciantes para investimentos. Lídia e Zé mantiveram um romance de cinema, tipo “A Bela e a Fera”. Ele a endeusava com joias, perfumes e roupas caras; carinhoso a ponto de servir amada botando comida na sua boca, com requinte do uso de guardanapos.


Ela tinha furor uterino e não resistia em jogar charme sobre os “cabras” de Lampião, na descrição machista de alguns escritores.


O desfecho desse romance todos já conhecem: numa dessas ausências de Zé Baiano, Lídia se envolveu com o cangaceiro Bem-Te-Vi, com quem mantivera um namorico na adolescência; foi flagrada e chantageada por outro cangaceiro que também a queria. Um tal de Coqueiro, descrito por Dadá como “cabra” de corpo curto, negro alto e de braços longos e feio. “Feio de causar medo”, disse a amada de Corisco tempos depois.


Diante do alvoroço que um triângulo amoroso provoca, Bem-Te-Vi não esperou tempo ruim: se escafedeu. Quanto ao chantageador, Lampião ordenou que lhe dessem num tiro na cara e Lídia foi morta a pauladas pelo próprio Zé Baiano que a enterrou e chorou copiosamente por muito tempo.


Cristina ao lado de Português, teve morte violenta em decorrência de adultério


O cangaço também teve uma Lili, essa sim de muitos amores. Foi de Lavandeira, depois foi de Mané Moreno, em seguida de Moita Brava e ainda teve um caso “por fora” com Pó Corante. E acabou morta a tiros por Mané Moreno, exatamente por causa de uma escapulida fora do casamento.


Moita Brava tinha esse epiteto de valente, mas dizem que não gostava muito de tiroteios; ficava nos coitos só comendo, dormindo, vigiando e chegado a um baile. Logo conheceu uma moça alta e magra (tipo modelo de revista), mas desprovida de beleza, chamada Sebastiana. Numa dessas refregas com as volantes, o casal escapou e sumiu sem deixar rastro ou bilhete.


No bando também tinha uma Naninha, casada com Gavião; Rosalina, que amava Chumbinho, uma tal Rita Xavier, que era irmã de Lili e Noca. Uma Quitéria, concubina de Pedra Roxa.


Lembram de Mané Moreno citado acima? Pois é, arranjou outra, chamada Áurea. O cangaceiro levava jeito e sorte com as mulheres porque essa Áurea é descrita como uma cabocla de lábios sensuais, dentes perfeitos e sorriso maroto. O casal não sobreviveu para contar suas aventuras amorosas e de cangaço: foi crivado de balas por uma volante cujo cabecilha era Odilon Flor, dos lendários Nazerenos.


Todas as Marias - Imaginem vocês um Baile Perfumado durante uma pausa num coito seguro com os casais acima, mais Maria Bonita e Lampião, Dadá e Corisco, Maria Cardoso e seu marido Gitirana; mais uma Maria da Conceição casada com Pai Véio, outra Maria companheira de Ferrugem; Maria Honorina, de Volta Seca, Maria Dórea, de Zabelê, uma Maria de Jesus, casada com o cangaceiro Miúdo; ainda outra Maria, de Pancada e Maria Fernanda, que se juntou ao namorado Juriti, e que depois dos acontecimentos em Angico o cabra a devolveu aos pais por não ser mais virgem, quando a conheceu biblicamente.


Nenê(E), confidente de Maria Bonita e Lampião, Maria Jovina(C) e Durvinha(D)


E se nesse Baile Perfumado, ainda comparecessem os seguintes casais de bandoleiros?


Moça, de Cirilo de Ingrácia, cujo nome de batismo era Joana, descrita como uma branca sarará, alta e magra, boca grande, geniosa e que ao contrário das demais, a danada sabia atirar de fuzil. Escapou, foi presa e depois sumiu, “tomou Doril”.

Tinha uma Marina, de João Vidal; uma Minervina, de Vicente de Morina, sem esquecer de Mariquinha que já era casada e fugiu com Labareda. O mesmo Labareda que teve como primeira mulher Ozana de Jesus. Que não se trata de cangaceiro, mas o Cristo.


E pra finalizar tinha uma morenaça, confidente e cortesã de Maria Bonita, conhecida como Nenê, companheira de Luiz Pedro, esse também um confidente de longa data do próprio Virgulino. Nenê morreu antes do marido.


No cangaço o amor era lindo, poético, de aventuras; não havia conforto de camas para o sexo, nem descanso para casos de maternidade. Uma prova que elas, as cangaceiras, precisavam superar as vicissitudes da vida, seguir preceito morais rígidos de uma sociedade patriarcal, e encontrar meios de serem felizes – apesar do tempo ser de guerra.


João Costa.

Siga: @joaosousacosta ( Instagram)

Fotos do acervo de Benjamim Abraão

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