Mundo feminino no cangaço era movido a amor, aventura, raptos, machismo e misoginia

Por João Costa


Costumam dizer que as mulheres que entraram para o cangaço – ao todo 36, foram atraídas por uma espécie de sortilégios do destino: em decorrência de rapto, sedução, amor ou aventura; a maioria viveu e morreu numa região brutal, dominada por injustiças, misoginia e intolerância; as que sobreviveram, como Dadá e Sila, jogaram luz sobre seu tempo.


Maria Déa ou Maria Bonita. Foto: benjamim Abraão, colorizada por Rubens Antônio


Vejamos alguns casos trágicos, que pela brutalidade moral e religiosa, joga luz sobre um tempo de intolerância – que persiste até hoje – em relação à mulher. Impossibilitadas de viveram a sexualidade plena, porque o sexo, entre os cristãos, sempre foi a expressão máxima do pecado, portanto passível de pena, elas pagaram com suas vidas.


Lídia, reza a lenda, a mais bonita de todas as cangaceiras e que foi companheira de Zé Baiano citado como o mais cruel, e que a matou a pauladas em função de adultério. Lídia “foi pro mato” com Bem-Te-Vi, um cangaceiro que conhecera na adolescência. Flagrada e chantageada por outro cangaceiro, teve um final terrível.


Não só cangaceiros, mas os homens até podiam matar suas companheiras e depois alegar o nefasto “direito de defesa da honra, ou em decorrência da extrema emoção”, argumentos terríveis para justificar uma moral tacanha e hipócrita.


Maria Fernanda (es) namorou e viveu com Juriti. Eram primos, sobreviveram ao massacre de Angico. Antes de se entregar em busca de anistia, Juriti deixou Maria Fernanda na casa dos pais, sob a alegação de que quando a “conhecera biblicamente” a moça não era amais virgem.


Juriti se rendeu, delatou os companheiros ainda em fuga, foi queimado vivo pelo sargento Deluz e Maria Fernanda casou e foi feliz com próspero comerciante de Sergipe, segundo relatos orais.


Eleonor ou Nenê do Ouro, companheira do cangaceiro Luiz Pedro, lugar-tenente de Virgulino Ferreira, foi morta num tiroteio com uma volante, era parda, cabelo escorrido, estatura média e simpática. Foi uma das cangaceiras mais próximas a Maria Bonita. Ferida várias vezes em combate, no bando era conhecida como Nenê Ouro, por ostentar medalhões pesados de ouro.

- A vaidade nunca foi pecado e as cangaceiras, sem exceção, primavam por ela. Basta ver as fotografias feitas por Benjamim Abraão, como elas caprichavam na vestimenta e penteados modernos à la Garçone.


Mas Nenê teve um fim aterrorizante. Contam que após ser morta a tiros de fuzil quando saltava uma cerca, durante um tiroteio noturno, seu corpo foi sodomizado e profanado de forma mais vil, num ato de necrofilia.


Cristina, de Português, após relação extraconjugal, foi devolvida aos pais, mas acabou assassinada


Cristina, de Português, uma jovem que entrou para o cangaço de forma espontânea e por ter se relacionado com outro cangaceiro além de Português, foi devolvida pelo bando para a casa dos pais, mas encontrou a morte do caminho: foi assassinada a facas pelos cangaceiros Juriti e Cajazeiras, sob a alegação “de que poderia revelar locais dos coitos, caso fosse capturada pelas volantes”.


Eufrásia conhecida como Florzinha, ousou e fez valer sua liberdade, foi amante de muitos cangaceiros e que terminou ao lado de Saracura, e tinha também uma tal de Maria Isidoro, cangaceira cheia de mistérios que se dizia da Bahia e ninguém sabe com quem namorou ou viveu.


Florência de tal foi casada com Rio Branco – o casal que acompanhava Corisco e Dadá no momento em que Zé Rufino deu cabo de Corisco, e que desapareceu nas caatingas: para sempre!


Otília, que foi a primeira companheira de Mariano; Bidia, que seguia Volta-Seca; Maria Jovina, que viveu com Pancada; Gertrudes que seguia Beija-Flor.


Bando de Lampião: cangaceiros fotografados em 1936, pelo sírio-libanês Benjamim Abraão


Lembrar de Durvalina do amor eterno a Virgínio; a mesma que depois ficou com Moreno até o fim da vida, Leónida, chamada Lió, que ninguém sabe com quem convivia; Moça, que amava e seguia Cirilo de Ingrácia; a Lili, que gostava de Lavandeira e o seguiu até a morte do cangaceiro para depois escolher Moita Brava como marido e que terminou sendo morta por infidelidade.


Foram tantas e tão poucas, mas não tardias em seu tempo; a começar por Maria de Déa, ou Maria Bonita, que seduziu Virgulino Ferreira e que deixou para trás um casamento sem amor para abraçar uma paixão que poderia ter sido efêmera, mas que durou o tempo suficiente de uma tragédia shakespereana – única na história brasileira.


O Jornal Diário de Pernambuco a ela se reportou como “Madame Pompadour” do cangaço, em referência à cortesã francesa, que trocava favores sexuais com a nobreza francesa por apoio político ao rei Luiz XV, seu preferido de alcova. Vejam só a que ponto chegava à desinformação da imprensa a respeito das cangaceiras.


Por último e não por fim, tem a lendária história de Sérgia Ribeiro, a Dadá, foi raptada e mantida em “cativeiro” ainda menina por Corisco; com ele viveu o “amor possível”, combateu ao seu lado chegando a dividir o comando; assistiu a sua morte e viveu o suficiente para reconstruir a vida e dar ao próprio Corisco um enterro digno muitos anos depois – ela mesma lavou os ossos de Corisco antes de sepulta-los.


Acesse: @joaosousacosta pelo Instagram e meiaduziadetresouquatropb (YOU TUBE e Facebook)

Fonte “Amantes e Guerreiras”, de Geraldo Maia do Nascimento

“Os Últimos Dias de Lampião e Maria Bonita”, de Victoria Shorr; tradução de Marisa Motta

“Maria Bonita” – Entre o Punhal e o Afeto”, de Nadja Claudino

Imagens: Benjamim Abraão



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