Na ausência de médicos, cangaceiros e volantes recorriam às rezas e simpatias

Por João Costa


Combates entre cangaceiros e volantes foram inúmeros, em se tratando de uma guerra híbrida numa região de recursos escassos, os cangaceiros contavam com coiteiros que cuidavam da logística, os soldados volantes como agentes da lei tinham o estado como escudo legal e fonte de pagamento de soldos e salários para os contratados.


Do filme realizado por Benjamim Abraão, Lampião reza com o seu bando, 1936


Quando do combate na Serra do Catolé, Lampião foi ferido e tratado, inicialmente, pelo curandeiro espécie de paramédico do bando, cangaceiro Cícero Costa, que terminou sua carreira no cangaço baleado e sangrado pelo sargento Clementino Quelé.

Na ausência dos esculápios urbanos, cangaceiro e volante recorriam às meizinhas, amuletos e rezas para “fechar o corpo” contra os inimigos ou para espantar cobras e animais peçonhentos, mas cabia aos próprios combatentes os primeiros cuidados ao companheiro por ventura agonizante, em decorrência de tiros de rifle ou fuzil, punhaladas ou facadas letais.

Os males e seus malefícios assim eram tratados;


Em casos de Cefaléia: Folhas de algodão aquecidas e mascar o gengibre. Faringite: Chá de formiga e gargarejo com sal. Doenças reumáticas: Banha de capivara, chá de osso de jumento, carne de cascavel. Otites com leucorréia: Banha de traíra. Asma: Banha de ema. Constipação: Alecrim caseiro. Sinusite: Alecrim salobro. Diabetes: Jucá. Epistaxe: Cheirar algodão queimado. Otalgia: Tampões de folhas de algodão. Entorses e luxação: Emplastro de clara de ovo batida com breu e untar o local atingido, com banha de ema.


Mordedura de cobra: Queimava o local da picada imediatamente ou realizavam um corte com faca afiada para escorrer o veneno. Halitose: Mastigar folhas da goiabeira branca. Hemorragia: Suco de arnica. Cardiopatias e lipotímia: Chá de quiabo. Epilepsia: Chá de perna de garça. Ascaridíase: Erva de cruz. Difteria: Banhos de sândalo e alcaçuz. Hidrocele e hérnia: Banha de baiacu. Escabiose: Raspa de côco misturada mistura com enxofre, passando 8 dias sem molhar. Verminoses: Lavagem de manipueira. Fraqueza dos pulmões”, Leite de jumento pela manhã. Prisão de ventre: Chá de raiz da gitirana, retirada do lado do Sol nascente.


Os cabras de Lampião eram machos indo e voltando; os volantes “pau de dar em doido”, mas o que fazer em casos de disfunção erétil?


Amigo velho, em casos nunca alardeados de Impotência sexual a solução era recorrer ao conhaque com limão ou beber chá de velame, chá de cabeça de negro em jejum e água de arroz. À pimenta e ao caminho em jejum chamavam “mingau levanta homem” – e se nada disso resolvesse, paciência.


Cangaceiras Nenê, Maria Jovina e Durvinha em pose fotográfica para Benjamim Abraão


Já em relação à saúde das cangaceiras o mundo era sombrio e dominado por superstições e também pela medicação caseira na ausência de ginecologistas, um luxo da medicina naquela época.


Para suspender a menstruação, semente de manjiroba em infusão de grãos e café com cachaça, durante 9 dias. Febre alta: Suador de semente de melancia e a casca de angico em água serenada.


A cangaceira Sérgia Ribeiro, Dadá, em seus relatos para historiadores, chegou a lançar luz sobre o universo feminino no cangaço - elas estavam também sujeitas à fome, aos tiroteios, fugas constantes, desafios terríveis em casos de gravidez, além da opressão religiosa e moral, tinham de conviver com superstições.


De novo as Meizinhas. camponesas e as cangaceiras menstruadas eram impedidas de entrar nos quartos dos feridos de guerra para não arruinar a ferida.


Aos agricultores e cangaceiros quando do tratamento de doenças venéreas era feito com sumo de 12 limões bebido em jejum logo após o sol nascer. Não podia olhar para mato verde e nem para mulher; banho de rio nesses casos era proibido porque “ficava cego”, quando atingia os testículos ou em casos de “mula” (linfogranulomatose) o doente acocorava-se sobre o fogo.


Mas antes que o mal se abatesse e os malefícios se instalassem, os cangaceiros tinham como amparo apenas a fé religiosa, que beirava o fanatismo.


O aventureiro Benjamim Abraão fotografou e filmou o bando de Lampião em Oração; quando morto na Grota de Angico, nos bolsos de Virgulino Ferreira foram encontradas cópias de várias orações, entre elas a popular Da Pedra Cristalina:


“Minha Pedra cristalina, que no fundo do mar foste achada, entre o Cálice e a Hóstia Consagrada. Treme a Terra, mas não treme Nosso Senhor Jesus Cristo no Altar. Assim, tremem os corações dos meus inimigos quando olharem para mim; eu te benzo em cruz e não tu a mim, ente o Sol, a Lua e as estrelas, as três pessoas da Santíssima Trindade.


Meu Deus, na travessia, avistei meus inimigos. Meu Deus, que faço com eles?


Com a manto da Virgem Maria sou coberto, e, com o sangue do meu Senhor Jesus Cristo, sou valido. Tens vontade de atirar, porém não atiras. Se atirar, água do cano da espingarda correrá: se tiveres vontade de me furar a faca da mão cairá; se me amarrar, os nós desatarão e, se me trancar, as portas se abrirão.


Oferecimento: salvo fui, salvo sou, salvo serei com a chave do sacrário eu me fecho. Um Pai Nosso: três Ave marias; três Glória ao Pai, e ofereço às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!



Fotos e vídeo: Benjamim Abraão. 1936

Fonte: “Lampião, Cangaço e Nordeste”, de Aglaê de Oliveira

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