Narrativas sobre casal de cangaceiros Lídia e Zé Baiano reforçam racismo estrutural

Por João Costa


Lídia Pereira de Souza, oriunda do povoado de Salgadinho, Paulo Afonso(BA) é descrita por pesquisadores baseados em relatos de ex-cangaceiros como a mais bonita entre todas as cangaceiras – e que tinha furor uterino, uma das razões do seu fim trágico.


José Aleixo Ribeiro, o Zé Baiano, ou "Mão de Onça" pertencia a uma família de cangaceiros


"Morena de cabelos bem pretos, dentes brancos e bem alinhados, lábios carnudos, corpo de curvas perfeitas, de comportamento extrovertido no bando", Lídia e seu companheiro Zé Baiano viviam em estado de excitação sexual permanente, nada discretos.


Mas Lídia era uma mulher liberada para um tempo que lhe era adverso; de opressão moral contra mulheres, machismo exacerbado que geralmente leva ao feminicídio.


A maneira como descrevem esta personagem, até parece que buscam justificar sua tragédia. Traçam um paralelo entre “A Bela e a Fera”, num esforço para demonizar Zé Baiano por ser negro, mas que era tão facínora quanto os demais cangaceiros.


Ao tempo em que a imagem horrenda do cangaceiro José Aleixo Ribeiro da Silva, o Zé Baiano se popularizou, no livro “Lampião – As Mulheres e o Cangaço”, do escritor Amaury Corrêa há uma ex-cangaceira, que não quis se identificar, que considerava o cangaceiro “bastante simpático”, contrariando toda uma narrativa construída na base do preconceito.


Ainda assim o biótipo do cangaceiro José Aleixo é mostrado de fora pejorativa assim: “o nariz era até afilado, faces chupadas, malares salientes com os ossos esticando a pele e queixo comprido”.


O escritor Rodrigues de Carvalho também não escondeu seu preconceito racial ao definir Zé Baiano como o “Gorila de Chorrochó”, acrescentando que o cangaceiro “sem roupas e preso pela cintura com uma corrente seria negociável por qualquer sujeito esperto; enganaria a qualquer dono de circo ou diretor de jardim zoológico, faria com que pensassem estar adquirindo um antropoide”.


E a narrativa prossegue: Que o cangaceiro Zé Baiano um sátiro que sofria de priapismo, o terrível negro! Ruim como um judeu; sempre pronto a saciar seus instintos sexuais na primeira mulher ou moça que caísse sob suas garras.


O racismo estrutural no Brasil não é um fenômeno urbano, também tem raízes no universo rural nordestino, incluindo entre cangaceiros. Amaury Corrêa ainda reverbera em seu livro as descrições feitas por ex-cangaceiros, que se referiram a Zé Baiano como negro de “pele acinzentada, escamosa e a boca rasgada. Com lábios lembrando a de um sapo”.


Clementino José Furtado, O Quelé, foi cangaceiro e, depois, sargento da PM da Paraíba


Aparte: o ex-cangaceiro Clementino Quelé, ao romper com Virgulino por desavenças com o cangaceiro negro Meia-Noite se queixou com Lampião pelo fato do “Rei do Cangaço” ter tomado partido de Meia-Noite, “um negro”, ao invés de ficar do seu lado, um cangaceiro branco.


Já os relatos sobre Lídia deixam transparecer a concepção machista e discriminatória inclusive por escritores, ao tempo em que se referem a Lídia como “fogosa” e com “furor uterino”, em contraponto ao cangaceiro Zé Baiano como se monstro fosse por ser “negro e feio” – o que explicaria o que aconteceu.


- A morena era fogosa e nem tinha o menor respeito por Zé Baiano. Sempre que o amante saía, ela aproveitava para se atirar às conquistas, eis um dos relatos.


Zé Baiano entre Moderno e Arvoredo


Bem, o fato é que ocorreu um triângulo amoroso entre Zé Baiano, Lídia e Bem-Te-Vi III, que resultou no assassinato da moça de maneira cruel após um “julgamento e uma sentença macabra” que teve, inclusive, a aprovação das demais cangaceiras, que nem de longe demonstraram a mínima sororidade (é uma palavra nova) – um sentimento feminino quase sempre apagado quando se relatam trajetórias de mulheres guerreiras com fins trágicos.


Esse triângulo amoroso se tornou público no bando em razão de uma chantagem feita por outro cagaceiro de alcunha Coqueiro, que foi além, delatando aos demais e ao próprio Zé Baiano o que vira e acabou fulminantemente executado por ordem de Virgulino Ferreira.


Relatam que Zé Baiano ordenou ao cangaceiro José Manoel (Zé Nego) que atendia pela alcunha Demundado ou Dimundado amarrar Lídia a uma árvore onde a moça passou a noite chorando e suplicando pela vida, inutilmente.


Lembrando que esse Demundado viria a morrer envenenado em companhia do próprio chefe Zé Baiano, em junho de 1936,durante uma cilada preparada pelo coiteiro Antônio Pereira da Conceição, mais conhecido por Antônio Chiquinho.

Torço para que surjam pesquisadores que busquem uma revisão sobre o papel das mulheres no cangaço, já que não há como amenizar o preconceito racial, ainda latente nos sertões.


Fonte de consulta: Lampião – As Mulheres e o Cangaço, de Amaury Corrêa.

Amantes Guerreiras – A presença da Mulher no Cangaço, de Geraldo Maia do Nascimento.

Cangaceiros de A à Z, de Bismarck Martins.