Netas de imigrantes europeus, Maria Bonita e irmãs conviviam entre volantes e cangaceiros

Por João Costa


Uma versão dá conta que Maria Gomes de Oliveira é de 8 de Março, nasceu em Paulo Afonso na Fazenda Malhada da Caiçara em 1911 numa família numerosa de homens e mulheres: Ananias, Oséias, José, Isaías, Arlindo; e mais Benedita, Antônia, Dorzinha, Chiquinha, Nana, Dondon e Deusinha.


Arte de Fininho: Maria Bonita em frente à sua casa no sítio Malhada da Caiçara, Paulo Afonso(BA)


Sua avó era holandesa de nascimento, casada com um português; tendo o casal emigrado para o Brasil em 1850 e radicado na Região de Santa Brígida.


Mais conhecida no sitio Malhada da Caiçara, onde vivia, como Maria de Déa, a jovem seguiu uma tradição social sertaneja, de influência judaica: a endogamia. Casou com um primo chamado José Miguel da Silva, mais conhecido como Zé de Neném. Sapateiro de profissão, homem mais velho e em condições de sustentar uma família.


Sua irmã Dondon fez o mesmo, casou com um tal de Cícero, também sapateiro e irmão de Zé de Neném.


A Irmã mais nova, de 16 anos, Antônia Gomes de Oliveira também casou cedo e separou do marido, para depois tornar-se companheira do sargento do Exército José Mutti, cabecilha de volante e um dos perseguidores de Lampião na Bahia.


Em um depoimento sensacional ao canal Cangaçologia (YouTube), apresentado por Geraldo Antônio Júnior, o cabecilha de volante sargento José Mutti, revelou que seu caso amoroso como a irmã de Maria Bonita foi “arranjado” por Zé de Neném, ex-marido de Maria Bonita.


“Quem me apresentou Antônia foi Zé de Neném que me levou a um baile; ela era uma moça jovem, de 17 anos, alta, morena clara, pernas bonitas e cabelos até o ombro. Me apaixonei e ela veio morar comigo; em 1937 nos separamos, ela foi embora com os pais para Alagoas e lá nasceu João Mutti, nosso filho, que se tornaria sargento-viador da Aeronáutica”, revelou Mutti.

Mesmo vivendo com a cunhada de Lampião que visitava a família de Antônia e Maria Déa sempre que possível Mutti relata elaboração de vários planos e emboscadas para matar o casal Lampião e Maria Bonita, mas a história não registra combates relevantes entre sua volante e o bando de Virgulino.


Mas voltemos a “Maria do Capitão”. Como ela conheceu Virgulino, há versões para todos os gostos. Em prosa e verso. Mas segundo Oséias, seu irmão, Lampião frequentava sua casa. E o casal se conheceu, dançou e namorou, antes de Maria tomar a decisão de seguir o novo amor.


Também há relatos que indicam mais sobre as inquietações da baianinha que viria ser a “Rainha do Cangaço”. Contam que, mesmo casada, Maria de Déa teve aventuras extraconjugais; o escritor Alcino Costa atribui a Maria Bonita um caso com comerciante de tecido de Santa Brígida.


“Um romance sigiloso, com um tal comerciante de nome João Maria, tão sigiloso que ainda hoje é negado pelos seus familiares”. Este suposto romance extraconjugal não é mencionado em profundidade por nenhum outro escritor.


Conta-se que entre 1929 até 1932, já convivendo com Lampião, permaneceu Maria em casas de coiteiros. Por conta da Revolução de 1930, a repressão ao cangaço arrefeceu, as forças policiais estavam focadas no Litoral e Lampião aproveitou a oportunidade para determinar que as mulheres casadas com cangaceiros podiam se juntar ao bando.


Foi uma mudança radical no cangaço no que se refere a costumes, higiene e civilidade nas relações em grupo, e isso não impedia que o bando seguisse barbarizando nas razias e vinditas.


Atentem para as fotografias de Maria Bonita e das demais cangaceiras; elas expressam esteticamente como elas gostariam de ser lembradas: bem vestidas, cobertas de joias e em poses ensaiadas.


E da relação com Virgulino veio a maternidade, uma vez que no primeiro casamento, devido à infertilidade de Zé de Neném, ter filhos estava fora de questão.


Relatam que Maria Bonita engravidou quatro vezes, mas só uma filha nasceu e que recebeu o nome de Expedita. O parto foi assistido por uma senhora de nome dona Rosinha, e é atribuída a essa parturiente o fato de a criança ter sobrevivido, pois nos outros três partos anteriores não houve assistência alguma.


Cangaceira Durvinha(E) e seu companheiro Moderno(C), cunhado de Lampião



Maria Bonita foi descrita pelo Diário de Pernambuco como “Madame Pompadour” do Cangaço, uma definição de Benjamin Abraão. Na edição de 30 de julho de 1938, sobre os acontecimentos em Angico, inclui um parágrafo sobre Maria de Déa, que diz:


“Maria Bonita amava Lampião doidamente. Nunca o abandonava quando no combate. Com ele viveu, com ele morreu”.

Por fim, o relato do soldado José Panta de Godoy, da volante do aspirante Francisco Ferreira de Melo e que foi o carrasco de Maria Bonita. Diz ele:


Aí eu atirei nas costas dela e ela caiu; no que ela caiu, ela levantou-se; eu dei outro tiro na barriga dela, assim por trás, ela caiu e não levantou mais. O soldado Santo cortou a cabeça de Lampião, e depois me emprestou o facão para mim cortar a cabeça de Maria Bonita. Nisso nóis fiquemos levantando a saia dela com a boca do fuzil, pra vê a caçola que era incarnada”.


Soldado Santo(E) deu o primeiro tiro em Lampião(D), de quem foi amigo e atendia pelo nome de Galeguinho


Ali, agonizando, Maria Bonita se deparou cara-a-cara com Sebastião Vieira Sandes, o soldado Santo que matara minutos antes seu companheiro e a quem conhecera quando este era coiteiro, amigo de Virgulino na confecção de artefatos em couro, e organizador dos famosos bailes perfumados, a quem, carinhosamente, tratava como “Galeguinho”.


- “Galeguinho, pelo amor de Deus, não deixe acabarem de me matar”, suplicou ela.


Quando Santo ia oferecer-lhe um cigarro, surgiu o soldado Godoy, o autor do primeiro tiro para dar cabo “da bandida”, que a decapitou como rezava o código de honra.


Santo fez o mesmo com sua presa, cortando a cabeça de Lampião, a quem ele matou e que tinha sido seu amigo no passado.


Como Lampião terminou seus dias todo mundo sabe. Mas como viveu e morreu Zé de Neném?


O pouco que se sabe, Zé de Neném nunca sofreu assédio da polícia pelo fato de ter sido o ex-marido da “rainha do cangaço” e também nunca chegou sequer a conhecer Lampião – seu rival de alcova.


Relatam que deixou tudo para trás, casou novamente com uma das irmãs da própria Maria Bonita e reconstruiu sua vida; jamais deu entrevistas; migrou para São Paulo onde fez fortuna e virou industrial do ramo de calçados.


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Fotos. Benjamin Abraão.

Fonte: “Lampião da Versão, Mentiras e Mistérios de Angicos”, de Alcino Alves da Costa

“Maria Bonita – Entre o Punhal e o Afeto”, de Nadja Claudino