Papel das mulheres na Guerra de Canudos, na Coluna Prestes e no cangaço

João Costa


No Brasil do início do século XX a tradição ocidental judaico-cristã da família urbana ou rural já estava enraizada, a mulher era considerada algo frágil, que deveria ser protegida pelo pai, irmão mais velho ou marido, a tal ponto que o casamento era apenas um ritual em que a família passava a mão da moça para os cuidados, daquele momento em diante, do marido.


Maria Bonita em foto de Benjamim Abraão feita em 1936 e colorizada recentemente


Havia mais mulheres que homens, elas tornaram-se, em muitos casos, moedas de troca entre famílias rurais, geralmente provocando o fenômeno da endogomia (casamento entre primos).


Na Guerra de Canudos, 1896/97, mulheres não abandonaram seus maridos e também foram chacinadas pelo exército, cujos soldados combatiam, mas deixavam na retaguarda suas amadas, as chamadas “vivandeiras”.

A Coluna Prestes rasgou o Brasil do Sul ao Norte entre 1925/28; uma marcha icônica e patriótica foi feita por soldados: além das “vivandeiras”, esposas, noivas e namoradas acompanhavam a tropa.


O cangaço lampiônico, entre 1930 até 1938, tornou-se outro exemplo exatamente por conta da presença das mulheres. O mais famoso chefe de bando de cangaceiros, Virgulino Ferreira da Silva Lampião, deu o exemplo que foi seguido pelos demais.


Reza a lenda que Lampião mudou de atitude para permitir mulheres no bando, depois de observar, em 1926, a Coluna Prestes passar acompanhada de muitas mulheres. Quatro anos depois, as admitiu no bando; elas não precisariam combater; apenas dar o toque feminino – porque ninguém era ferro.


Assim, ele mesmo se engraçou por uma jovem já separada do marido, resolveu leva-la para o bando, isso depois de um ano de relacionamento com Maria Gomes, que atendia pelo nome de Maria Déa e que viria a se tornar a Famosa Maria Bonita.

Ressalvando que Maria Déa seguiu seu amado por livre e espontânea vontade; outras foram raptadas, como Sérgia Ribeiro(Dadá) levada à força por Cristino Gomes, o Corisco, tal qual Ilda Ribeiro, a jovem Sila, raptada pelo cangaceiro Zé Sereno, após um baile em que a garota compareceu de maneira compulsória.


“Doar” crianças para outras famílias criarem ou “vender” filhas foram também duas faces da mesma moeda de miséria e fome que assolava o Nordeste.


Foi o que aconteceu com garotinha magérrima e acabrunhada chamada Dulce Menezes dos Santos que perdeu os pais e foi morar com uma irmã na zona rural de Piranhas(AL); ali foi comprada pelo cangaceiro João Alves da Silva, o Criança por um bornal de joias.


Mas também existiram àquelas que ingressaram no cangaço por aventura ou relacionar-se com primos que se tornaram cangaceiros.


Durvinha e Virgínio Fortunato(C) numa cena ensaiada para o filme de Benjamim Abraão, 1936


Foi o caso de Cristina, uma garota magra, alta, tipo manequim, que numa festa ela mesma assediou um cangaceiro que atendia pela alcunha de Português e o seguiu.


O estado de miséria da família fez com que a belíssima Lídia Pereira de Souza acompanhasse um cangaceiro que permanecera em sua casa por um tempo para tratar-se de uma enfermidade. Deixou a casa para viver com o cangaceiro Zé Baiano, um bandoleiro brutal e rico, que também se notabilizou por ser agiota.


Lídia gostava de Zé Baiano, mas amava o cangaceiro Gitirana que a “levou para o mato” e, depois do amor, a moça recebeu a sentença de morte – adultério era fatal.


Poucas foram às mulheres que puderam recusar parceiros e escolher o amado; e uma delas foi à morena Maria da Conceição Souto, pseudônimo de Durvinha Gomes que, assediada pelo cangaceiro galanteador Luiz Pedro, o recusou para apaixonar-se, à primeira vista, de um cangaceiro mais velho e já viúvo, Virgínio Fortunato, que fora casado com Anália Ferreira, simplesmente uma irmã de Lampião.


Morto Virgínio Fortunado, Durvinha passou a conviver com o cangaceiro Antônio Inácio da Silva, o Moreno, casal que sobreviveu e conviveu até o fim da vida.


No cangaço teve uma Lili, de Lavandeira; Maria Fernanda, de Juriti, Maria Doréa, que gostava de Zabelê, Mariquinha que amava Labareda; Naninha, de Gavião, Quitéria, de Pedra Roxa; Rosinha que gostava de Mariano, Sebastiana, de Moita Brava; Verônica, de Beija-Flor e Zulmira que amava Meia-Noite.


Teve uma certa Sabina que amava Mourão, Adília que gostava de Canário, Maria, de Baliza; Inacinha, uma índia Pankararé que amava outro índio-cangaceiro chamado Gato; Julinha, mulher de sangue quente e de ascendência indígena também da tribo Pankararé; não andava só e ingressou no cangaço ao lado das irmãs Catarina, Joaquina, Joana, uma Chamada Rosa e a mais nova que se chamava de Sabrina; essas eram solteiras e, portanto não podiam ficar no bando porque “eram de todos e não pertenciam a ninguém”.


Dalva, que seguia Ponto-Fino, Dinda, de Delicado, Eleonora, de Serra Branca, Enedia, de Cajazeiras, Eufrozina, de Elétrico, Florência, de Rio Branco Iracema, de Pinga-Fogo, Josefa Maria, de Relâmpago e Enedina de Zé de Julião; Sabonete, guarda-costas de Maria Bonita, tinha a sua Josefina Maria e o cangaceiro Relâmpago que gostava e vivia com uma tal Josefa Maria.


Fonte: Lampião, as Mulheres e o Cangaço”, de Antônio Amaury

“Amantes e Guerreiras”, de Geraldo Maia do Nascimento