Paraíba: berço de lutas revolucionárias e ação de cangaceiros no "estado paralelo"

Julierme Wanderley


A Paraíba desde o início de sua existência foi palco de inúmeros conflitos relacionados às mais variadas questões que passava pelos conflitos entre colonizadores e nativos, instabilidades revolucionárias, revoltas de cunho político, questões familiares chegando até aos conflitos entre o Estado oficial e Estado paralelo representado pelos bandos de foras da lei que se chamavam cangaceiros.


Livro do professor José Octávio como fonte de pesquisa sobre origens do povo paraibano


A história da Paraíba começa com instalação do sistema das capitanias hereditárias que tinham essa denominação em relação à posse dessas imensas áreas de terra que seriam facultadas aos herdeiros dos futuros administradores escolhidos pela coroa portuguesa para tomar posse das mesmas.


Pequena nobreza lusitana procedia da Índia

Essas capitanias eram doadas ou concedidas aos donatários, esses que eram provenientes da nobreza lusitana que se comprometiam a ocupar, e desenvolve-las, tornando-as economicamente viáveis. Sobre a origem desses nobres que se tornaram senhores de vastas porções territoriais “Capistrano de Abreu” afirma que, “os donatários saíram, em geral, da pequena nobreza, dentre pessoas práticas da Índia, afeitas ao viver largo da conquista, porventura coactas nas malhas acochadas da pragmática metropolitana”. (Abreu, 1923, p.67).


Os donatários faziam parte de uma nobreza de segunda classe de Portugal ávida por glórias e fortuna fácil, sendo porem que alguns deles nunca chegaram a pisar em solo brasileiro e os que aqui chegaram viram bem de perto que sonhar com conquistas, glórias, fortunas era uma coisa, mas, conquista-las em regiões tropicais e acima de tudo com poucos recursos, era outra coisa totalmente diferente.


Essa experiência de dividir territórios em capitanias hereditárias já havia sido implantada pelo governo de Portugal nas possessões ultramarinas desse país, localizadas no atlântico, mas, precisamente nas ilhas da Madeira, e dos Açores com inegável sucesso, entretanto, os portugueses não levaram em consideração o tamanho do novo território pensando que não teriam dificuldades com essa empreitada, foi um ledo e fatal engano, pois, o gigantismo territorial dessa terra criou uma série de dificuldades as tentativas de desenvolver economicamente e povoar esse lugar.


Como não poderia ser de forma alguma diferente, as tentativas de ocupação dessas áreas não lograram êxito e como exceção a essa regra somente, duas capitanias conseguiram se sobressair que foi a de Pernambuco e São Vicente, pois, as demais capitanias sofreram com a falta de infraestrutura e principalmente com a escassez de recursos financeiros que jogou os donatários responsáveis por essas paragens num abismo de desventuras e agonias que fizeram esses desistirem dessa grande aventura colonizadora nessas regiões tropicais do Brasil.


Estado surge sob o signo de luta


Definitivamente o Brasil não foi feito para amadores, e nessa altura dos acontecimentos é que essa empreitada colonizadora iria precisar de homens dispostos ao tudo ou nada e, é dentro dessas circunstâncias históricas que surge a Paraíba numa ebulição de lutas onde o sangue dos povos nativos e colonos vai inundar cada palmo desse chão criando de maneira factual o caráter guerreiro do povo paraibano. Fazendo referência a esse caráter guerreiro do povo paraibano o professor José Otávio na sua obra intitulada “História da Paraíba: Lutas e Resistências” afirma que, “a Paraíba nasceu sob o signo de luta que se transformou em resistência e vida. Resistência — esse o lema que perdurou ao longo de sua história”. (Otávio, 1996, p.25).


A Paraíba nasceu do sangue dos vencidos e vencedores e das dificuldades de toda ordem que se fizeram presentes ao longo de todo o processo histórico desse pedaço de Brasil e nordeste moldando o caráter de seu povo fazendo com que personagens saídos de suas entranhas fizessem parte desse grande enredo que estruturou as bases da nacionalidade brasileira.


Desde, dos primórdios de sua existência a Paraíba foi ligada por laços bem próximos às capitanias de Pernambuco e Itamaracá inclusive tendo a maior parte de seu território dentro dos limites geográficos desta última entre os anos de 1534 a 1539, e se deve ressaltar que Paraíba manteve relações estreitas com as capitanias do Rio Grande do Norte e Ceará.


Ocupação enfrenta reação de nativos


O maior problema para a conquista e posterior ocupação da Paraíba pelos colonizadores portugueses foi à insurgência dos nativos, fomentada pelos franceses que há tempos praticavam o contra bando de madeira de pau-brasil nessa área e não viam com bons olhos a entrada dos portugueses dentro desse território transformando essa região num grande campo de batalha com lutas incessantes e ferozes com contornos de dramaticidade que tornou a ocupação da Paraíba em uma epopeia das mais sanguinárias já registradas no Brasil.


A criação oficial da Paraíba data do ano de 1574, e teve por motivação a primeira revolta dos índios potiguaras que levou os colonos de Pernambuco a se preocuparem em ter seus engenhos destruídos e sua população ameaçada de aniquilação como aconteceu com os engenhos e a população de Itamaracá e é por contas dessas contingências urgentes é que se compreende a finalidade da criação da capitania da Paraíba que foi a de conter as investidas guerreiras dos potiguaras e, ao mesmo tempo, mantê-los sob controle dentro desse território.


A ocupação europeia enfrentou o fator nativo como elemento de resistência e luta


Na verdade, os portugueses não intencionavam só manter esses povos nativos dentro dos limites da Paraíba, eles tinham um plano bem mais ambicioso que era, na verdade, expandir as fronteiras da produção açucareira para as terras dessa capitania e abrir de uma vez por todas os caminhos para a ocupação de outras áreas localizadas no nordeste brasileiro e assim dessa forma orquestrada aleijava de maneira irrevogável os nativos e franceses de qualquer possibilidade de controle dessa região estratégica.


Com a ajuda da nação tabajara, aparentados dos potiguaras os portugueses conseguem quebrar a espinha dorsal da resistência potiguar e lançam de forma perene às bases definitivas da ocupação do solo paraibano, isso aconteceu no de 1585 com a fundação da cidade de Nossa senhora das Neves.


A ocupação da Paraíba não fugiu envias de regra do restante da colônia lusitana que a princípio se esgueirava pelas áreas próximas do litoral onde a indústria açucareira se desenvolvia depredando a Ilíada atlântica e exterminando seus povos nativos e deixando os sertões desconhecidos e misteriosos por ocupar.


*Julierme Wanderley é professor de Geografia e pesquisador.


Capa de Livro do historiador José Oávio

Imagem indígena: Paraíba Criativa

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