Patos de Irerê e Triunfo: ferido, Lampião se recupera no seu spa preferido para descanso e bailes

Nos primeiros anos da década de 20, Lampião adotou um modus operandi que muitos escritores, baseados na tradição oral, descrevem como bordão popular: “Lampião aterrorizava em Pernambuco e tirava férias na Paraíba”, até seu arqui-inimigo, Clementino Quelé, entrar em ação em conjunto com a volante do major Teófanes Torres, sem dar trégua ou sossego.


Na caçada a Lampião, a polícia deixa rastro de violência, barbarizando por onde passa. O jornal A Província, edição de 26 de junho de 1921, reporta essa cavalgada violenta. Em um trecho da matéria, assinala:


Imagem: Pedra do Reino, em S. J. do Belmonte, tem uma furna na entrada


- “de um infeliz sertanejo, de nome Manoel Geroneio, arrancaram-lhe os olhos, na suposição de que ele servia de guia aos cangaceiros”.


E mais: “Feita a tal empreitada, o capitão Theophanes Torres, cognominado no sertão com o epíteto de Átila, tal a esteira de crimes que tem cometido em nome da legalidade, segui para Floresta”.


A guerra era de terra arrasada.


A tradição oral aponta que o bando de Lampião, certo dia, marchava despreocupadamente pelas bandas do município de Conceição(PB) e ao atingir o sítio Lagoa do Vieira, lado paraibano da Serra do Catolé, na vila de Santa Inês, foi surpreendido por fogo cerrado.


“Uma bala de fuzil atravessou um calcanhar de Lampião de um lado para o outro”. Uma versão atribui o tiro a Teófanes Torres; a tradição oral relata o tiro certeiro que feriu quase de morte Virgulino Ferreira teria sido disparado pelo soldado Antônio Braz, ou Antônio Pequeno.


Vários militares são feridos obrigando o recuo das volantes. Ferido, Lampião é levado para Serra do Catolé, onde é tratado com raízes e plantas medicinais pelo enfermeiro do bando, o cangaceiro Cícero Costa, que pouco depois é emboscado por Clementino Quelé, sendo capturado e sangrado.


Nessas refregas, Quelé chegou a ficar poucos metros de distância de Lampião, que sangrava e estava praticamente imobilizado.


Mas em socorro de Lampião chegou Antônio Rosa Ventura que com astúcia e estratégia de disparar e fugir, conseguiu dispersar a volante, dando chance a Lampião ser socorrido e levado desta feita para tratamento médico em terras paraibanas do coronel Marcolino Diniz e do lado pernambucano, no Sitio das Almas, em Triunfo.


Igreja no Saco dos Caçulas, em Patos do Irerê: um dos redutos de Virgulino Ferreira para descanso


A convalescência de Virgulino no Saco dos Caçulas, em Patos de Irerê(PB) tem dois relatos fantásticos. O primeiro, pouco verossímil, do padre e escritor Frederico Bezerra Maciel, diz que Lampião recebeu o melhor do tratamento médico da época; além de um repouso nababesco e com assistência feminina. Diz o padre e escritor:


“No Saco, durante a sua convalescença, duas esbeltas e despachadas caboclas, rivais em coragem e beleza, Ciça e Marilurde, cuidavam de Lampião. A primeira, alta e alva, longos cabelos castanhos claros, lhe costurava as camisas, serzia as roupas, que também lavava e passava a ferro, entregando-a sempre perfumada com água de cheiro. A segunda, baixa, olhos esbugalhados e bunduda, amorenada, lhe preparava papas e quitutes. Ambas, cada qual por sua vez, lhe penteavam o cabelo. Mormente, emprestavam-lhe todo o carinho e ternura feminina, sem restrição.”


Por outro lado, a narrativa desses fatos pela tradição oral diz que neste período, Lampião teria sido cuidado por Manoel Lopes (subdelegado), o famoso “Ronco Grosso” e sua esposa – conhecida como Mãezinha, e por Antônio Ladislau, o Tocha, um cangaceiro de carreira solo, ligado a Marcolino Diniz.


Isso do lado paraibano, porque do lado da divisa, em Pernambuco o “Rei do Cangaço, também tinha seu spa de recuperação no casarão do sítio das Almas, do coiteiro Manoel do Borges, fazendeiro e dono de cassino.


- O coiteiro e sua família, ocupavam a parte de baixo do casarão das Almas; o sótão foi transformado em enfermaria privada de Virgulino, diz a versão oral.


Recuperado e em forma, os anos de 1923/24 foram para Lampião praticamente só de divertimento, relações públicas e de sucessos nas razias. Temporadas de descanso e bailes.


Virgulino, Lampião(E) e seu irmão Antônio Ferreira, em Juazeiro do Norte, 1926


O dia todo, de Triunfo, se escutava o som do fole de oito baixos no sítio das Almas, onde as moças triunfenses, especialmente convidadas, encantavam o lugar. Esse casarão de Manoel Borges, literalmente, foi erguido entre os dois estados: a sala de visitas fica em Pernambuco, e a sala de jantar no lado Paraibano. Coisa de cinema, ainda hoje.


Mas antes disso, quando Lampião enfrentou seu momento mais difícil, com ferimentos cheios de larvas, precisando de desinfecção geral, descansou num coito na Serra do Catolé, em São José do Belmonte, descrito como “furna da pedra grande”. Seria esta furna, a Pedra Bonita ou Pedra do Reino?


João Costa. Siga: @ajoaosousacosta (instagram)


Fonte: “Lampião na Paraíba”, de Sérgio Augusto de Sousa Dantas.

“Lampeão Antes de ser Capitão”, de Luiz Ruben Bonfim

“Lampião – a Raposa das Caatingas”, de João Bezerra Lima Irmão.


Por Trás do Blog
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