Peça “O Santo Inquérito” e os universitários do Curso de Direito da UFPB

Por João Costa

Embora a Universidade Federal da Paraíba através da sua política de extensão tenha mitigado ou mesmo tratado como sem importância o Teatro Universitário foi exatamente ele que projetou e proporcionou uma certa pujança cultural da vida acadêmica nas décadas de 70 ao início dos anos 1980, devido ações teatrais vinculadas à extensão ou mesmo manifestações espontâneas de grupos de estudantes. Eu vivi essas experiências nos dois lados.


Cena de O Santo Inquérito com estudantes da Faculdade de Direito da UFPB


Hoje vou me reportar à existência do Grupo de Teatro da Faculdade de Direito da UFPB. Pois é. Acadêmicos do curso de Direito também participavam da extensão cultural, isso no ano da graça de 1984.


Numa reunião da extensão na COEX alguém da Pró-Reitoria Para Assuntos Comunitários, representante do curso de Direito indagou se era possível desenvolver atividades de extensão na área de teatro entre os alunos do curso. De pronto me ofereci, porque atuava também no Núcleo de Teatro (Lima Penante) e as atividades seriam desenvolvidas no prédio antigo da faculdade, na Praça João Pessoa, onde há um pequeno auditório; e o NTU fica bem próximo da famosa praça.


Valéria Guerra, norte-riograndense, especialização em Direito Internacional no papel de Inquisidora


Eu já havia tido experiência com encenação de assuntos jurídicos com o texto “A Exceção e a Regra”, de Bertoldo Brecht, e já cheguei para uma reunião com os estudantes com o texto O Santo Inquérito, de Dias Gomes, engatilhado para encenar. Promessas de apoio institucional foram muitas, mas tudo saiu mesmo na raça dos estudantes talentosos que se envolveram na encenação.


Para esta jornada contei com a parceria do ator Omar Brito, que era da Psicologia e também do professor de Latim e Filosofia, Laerte Fiririu (é assim que se escreve?). Omar Brito merece uma reflexão à parte devido à sua participação essencial na vida cultural e acadêmica da UFPB por décadas, devido às suas inquietações anárquicas, se transformavam em transgressões que sacudiam o universo conservador da Academia. Ator de imensos recursos de interpretação seu papel no Teatro Universitário merece registro e reflexão.


Estudantes de Direito, Isabela Costa(E) e Ramayanna Lira no papel de Branca Dias


Foi uma experiência enriquecedora não só por conta do talento dos estudantes-atores, mas pela prática de discussões, abordagens, pesquisa sobre judaísmo, conversão religiosa, direito – o canônico e encenação.


O infortúnio de Branca Dias, personagem central da narrativa de Dias Gomes, foi interpretado pela estudante Ramayanna Lira, Omar Brito como Inquisidor que beija a “judia impura” e acreditem: nos papéis de padres-inquisidores duas atrizes: Waléria Guerra e Isabela Costa; Amaury Costa e J. Barreto; Maria Betânia, sonoplastia, João Batista fez a iluminação e Marcus Dizeu(já falecido), a cenotécnica.


Omar Brito e Ramayanna (acima) Ramayanna Lira e Amaury Costa


Bem o apoio institucional veio, mas veio pela metade. Apenas viabilizaram o figurino.


O diretor e professor de teatro Fernando Teixeira, deixara abandonado no Lima Penante, o cenário criado por ele para uma peça que ele havia dirigido, todo em madeira e ferro. Uma parafernalha gigantesca que servia de arquibancada, palco, cadafalso.


Não me perguntem como, mas tudo isso acompanhou a peça para uma apresentação em Salvador(BA), onde se realizava um evento em homenagem ao autor da peça e também para o Festival Universitário de Blumenau.


J. Barreto e Ramayanna Lira: o destino dos judeus convertidos em cristãos-novos


O desafio quando se faz universitário é navegar entre o engajamento político e a criatividade crítica que o teatro provoca – daí o teatro ser sempre experimental em todos os sentidos. Busca de uma linguagem cênica e de uma verossimilhança com a realidade vivida pelos atores.


Julgamento e a condenação da paraibana judia Branca Dias, a essência de O Santo Inquérito


O clima conservador sempre esteve presente nos cursos jurídicos, mas não o reacionarismo e extremismos brutais hoje em voga entre os jovens universitários.


Com esse grupo teatral da Faculdade de Direito da UFPB foi possível transgredir e dar uma certa pulsação ao Teatro Universitário.


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