Pedra Bonita ou Pedra do Reino: cenário de fanatismo sebastianista e saga cangaceira

Por João Costa


A Pedra do Reino está associada ao furor messiânico do Sebastianismo visitado e revisitado em romances e teses acadêmicas. Mas o que é a Pedra do Reino afinal?


Pedra do Reino e totens idealizados pelo escritor Ariano Suassuna, em S. Jose do Belmonte(PE)


São duas pedras juntas - uma de 30 metros de altura e outra com 33 - local que virou sede do reino criado por um certo João Antônio dos Santos com crenças, leis e costumes próprios não muito divergentes das existentes no País até neste século 21.


Este icônico monumento de rochas popularizado na literatura por Ariano Suassuna, com o seu livro “Romance da Pedra do Reino”, e também por José Lins do Rego, com o romance da Pedra Bonita, fica no município de José do Belmonte(PE), bem na divisa com o município de Santa Inês.


A Pedra do Reino está, segundo Ariano, na divisa dos dois estados. “Uma banda em Pernambuco, a outra olhando a Paraíba”.


O fanatismo


A volta de Dom Sebastião, rei de Portugal, Brasil e partes da África, desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, para combater aos muçulmanos, prometida por João Antônio assegurava, “grosso modo”, que os pobres ficariam ricos; negros se tornariam brancos; o alcance imediato da prosperidade e reino da salvação, buscas tão prementes nos dias atuais guiadas pelo fundamentalismo religioso.


Toten em reverência a Maria Madalena, companheira de Jesus Cristo, ao fundo cruz demarca cemitério



A Pedra do Reino, vê-la ao longe, cruzar todo pátio onde estão as lumiaras, e mesmo passar por entre as duas torres; sendo conhecedor das suas implicações culturais e religiosas provocam emoções por conta da energia do lugar.


O lajedo faz uma interface com as lumiaras religiosas criadas e colocadas no local por Ariano Suassuna, quando secretário de Cultural de Pernambuco. 16 totens, esculturas - personagens sebastianistas - colocadas em círculo, algo como representando o sagrado e o profano.


São muitos os relatos de mortes voluntárias. Os rituais envolviam o consumo de bebidas que estimulavam os fiéis ao suicídio e ao sacrifício dos próprios filhos. Elas se jogavam do alto da Pedra, ou eram imoladas a golpes de facão; seus corpos largados no lajedo ao redor, dando o sentido de “lavar o altar com sangue”.


Crianças foram também sacrificadas. Cinquenta e três pessoas foram sacrificadas nos três dias da matança, incluindo a mulher do “rei”, a rainha Izabel.


O delírio místico do autointitulado rei João Antônio Ferreira teve seu ápice quando ele proclamou que a Pedra só se desencantaria quando lavada por sangue. Os sacrificados ressuscitariam poderosos e imortais.


Grande Paço em torno dos totens servem para manifestações culturais


O pai de João Ferreira foi o primeiro a se suicidar. Uma das mulheres do líder foi degolada por ele mesmo. A Pedra foi, de fato, lavada com sangue, mas não se desencantou.



Levando Pedro Antônio, um cunhado de Ferreira, declarar que a Pedra reclamava o sacrifico do próprio rei. João Ferreira foi brutalmente assassinado pelos seguidores.


Um dos fiéis conseguiu fugir da matança; foi até Vila Bela (Serra Talhada) denunciou o fato, e uma volante formada por milícias particulares e soldados foi até o local, combateu, desarticulou o Quilombo e prendeu os sobreviventes.


Descoberta literária


Entretanto, coube ao jornalista Tristão Alencar de Araripe Júnior, em 1878, deixar o Recife, viajar até São José do Belmonte para narrar, em crônicas publicadas pela Tipografia Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, suas “Crônicas Sebastianistas”, organizadas depois no romance “Reino Encantado”.


Por dentro do Reino Encantado



Foi esta reportagem do século XIX de Tristão Alencar, que inspirou José Lins a escrever o romance “Pedra Bonita”, em 1938. Foi na narrativa tipo romance de cavalaria de Tristão de Alencar, que o notável escritor Ariano Suassuna se inspirou para escrever “Romance da Pedra do Reino – e O Príncipe do sangue do Vai-e-Volta”, em 1971.


Ariano Suassuna, quando secretário de Cultura de Pernambuco encomendou o talhamento em rochas de vários totens, que ele batizou de Ilumiara.




O Ilumiara Pedra do Reino conta com vários totens em torno das duas pedras gigantes que medem respectivamente 30 e 33 metros de altura. Existem 16 esculturas de personagens do episódio sebastianista, do romance de Suassuna e de santos. Elas estão dispostas em círculos e retratam a parte sagrada e profana


A saga cangaceira na Pedra Bonita


Reza a lenda que o “salão” e pedras enormes que ficam entre as duas torres da Serra do Catolé, serviram de “visão” privilegiada para Virgulino Ferreira da Silva, “Lampião”, quando este se encontrava gravemente ferido, em 1922.


Aliás, a Serra do Catolé, foi palco para entreveros épicos entre o bando de Lampião e as volantes da Polícia Pernambucana, cujo cabecilha de volante era o então tenente Theóphanes Ferras; e polícia paraibana, liderada pelo implacável sargento Clementino José Furtado, ou simplesmente sargento Quelé.


Esse Quelé, fora cangaceiro e chefe de subgrupo de bando de Lampião, com quem se desentendeu, tornou-se inimigo figadal e implacável perseguidor do bandoleiro, que se viu obrigado a abandonar terras da Paraíba, após o terrível saque á cidade de Sousa.


Casa da avó de Virgulino Ferreira, em Serra Talhada(PE)


Poetas e repentistas são contraditórios aos méritos para o grave ferimento no “Rei do Cangaço”. Alguns atribuem à volante do tenente Theóphanes Ferraz; outros à volante de Quelé.


Mas “repórteres” das décadas de 19 e 20 do século passado, à sua unanimidade, aí incluso os pesquisadores, os combates registrados na Serra do Catolé, guardam as duas torres da Pedra Bonita como testemunhas.