Perda no Teatro Paraibano: morre o ativista cultural e ator Hércules Félix

A semana começa com uma triste notícia: o teatro paraibano perde Hércules Félix um dos seus melhores atores e ativista cultural militante nos anos 1970/80 em grupos como o MUEIC, Ideodrama e Escola Piolin.


Ator Hércules Félix, no papel de Tenente Benigno, peça da 1a versão do projeto Vamos Comer Teatro/UFPB


Em 1977 existia em João Pessoa, um grupo de teatro amador chamado MUIEC, dirigido por Francisco Medeiros. Foi nesse grupo – do bairro da Torre – que conheci Hércules Félix. A peça foi encenada e participou do Festival de Teatro de Cajazeiras daquele ano.


Em seguida, Hércules atuou na peça “A Donzela Joana”, de Hermilo Borba Filo e com direção de Fernando Teixeira. Esta peça percorreu palcos no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, num projeto chamado “Mambembão”, em 1978/79.


Ator Hércules Félix conduz uma cruz durante encenação de protesto no Departamento de Artes da UFPB


Em seguida surgiu o grupo Ideodrama, um grupo de estudantes universitários e atores e atrizes, interessados em estudar teatro e encenar. O Ideodrama tinha a orientação do professor e diretor de teatro, Alarico Correia Neto.


Hércules fundou o grupo conosco e participou das encenações realizadas por ele. O Ideodrama se notabilizou no teatro paraibano pelo engajamento político pelo fim da Ditadura Militar e também pelas suas intervenções dramáticas na vida acadêmica do DAC/UFPB, que havia instalado seu curso de Educação Artística.


Atriz e jornalista Núbia Ramos contracena com Hércules na peça "A Lira dos 20 Anos", dir. João Costa


No Ideodrama, dirigi Hércules em vários espetáculos, dois deles encenados para a 1ª versão do Projeto Vamos Comer Teatro: “Tenente Benigno” e “A Lira dos 20 Anos”.


“Tenente Benigno”, texto de José Bezerra Filho, fez parte da 1ª programação do Projeto Vamos Comer Teatro. Hércules interpretou Tenente Benigno - o papel principal.


Hércules Félix e elenco da peça "Tenente Benigno", 1a programação do projeto Vamos Comer Teatro/UFPB


Embora o tema da peça fosse cangaço, a adaptação que fizemos foi de contestação ao Regime Militar. E exatamente por isso, enfrentamos muita pressão e constrangimentos por parte dos censores da Polícia Federal.


Em seguida montamos “A Lira dos 20 Anos”, de Paulo César Coutinho, cuja temática também tratava da luta armada nos anos 1960.


Hércules Félix(E) e elenco da peça "A Lira dos 20 Anos", temporada teatro Santa Roza, em 1986


Hércules foi um dos pioneiros a se engajar na Escola Piollin e, nos últimos anos, atuou como professor de teatro dona Escola Yoga Arte. Nos últimos anos enfrentou sérios problemas de saúde, chegando a perder a visão.


Seu falecimento é uma perda para o Teatro Paraibano, porque Hércules viveu grandes momentos de produção cultural.

Pela sua rede social, o ator e pensador, Edilson Dias, manifestou seus sentimentos.


"Irmano os meus sentimentos a família em luto tanto quanto o nosso seguimento Confraterno Adios, querido ator e músico instrumentista, Hércules Félix ( dirigidos por João Costa, atuamos durante prévios ensaios de A Lira dos Vinte Anos). Lá se foi, El Trombone expoente, admirable estranho, intérprete brechtiano desde o seminal Ideodrama, igual baluarte entranhado para com florescente Escola Piollin, em órbita daquele Baobá: a sombra hercúlea dele permanecerá - há de ficar ali... Oxalá.


O professor universitário, ator e diretor de Teatro, Everaldo Vasconcelos, também manifestou seu pesar pelo falecimento de Hércules Félix, de quem foi companheiro no grupo Ideodrama.


"Um grande ator, amigo e companheiro; uma perda irreparável para a cultura paraibana e para a memória do teatro paraibano".


Segundo João Costa, diretor e ator contemporâneo de Hércules Félix, destacou: " Perde o Teatro Paraibano um dos seus melhores atores e ativista cultural; Hércules foi gigante na arte da interpretação, na dedicação à transmissão do conhecimento teatral por onde passou. Um grande amigo e companheiro, vá em paz".