Raptadas ou em busca de aventuras, cangaço também abrigou movimento de mulheres

João Costa


Às mulheres do cangaço pode-se atribuir a base do arquétipo da mulher sertaneja por terem sido elas responsáveis pela mudança do paradigma feminino numa região de poucos recursos naturais, fanatismo religioso, violência extrema e padrões medievais de moral; elas não se vitimizaram.


Durvinha e Virgínio Fortunato (centro) numa demonstração de combate para Benjamim Abração


Comecemos pela famosa trajetória da baiana Durvalina Gomes, a Durvinha, que se apaixonou e fugiu de casa com Virgínio Fortunato, um cangaceiro bonitão e viúvo, cunhado de Lampião. Após a morte do amado não deixou o cangaço, tornando-se companheira de Moreno até o fim da vida, vivendo na mais absoluta clandestinidade – nem os filhos sabiam do seu passado – pense numa mulher de muitos segredos!


E o cangaço também era coisa de índio. Quem conhece a saga de Inacinha, a mulher do cangaceiro Gato? Morenaço, de poucos sorrisos, dizem que descendente da tribo Pankararé/Pankararu, aldeias do Raso da Catarina.


Num determinado tiroteio, Inacinha, grávida e sem muita agilidade, levou um tiro nas nádegas que a bala saiu pelo abdômen, sem atingir o bebê ainda na barriga.


O que fez Gato? Colocou-a nas costas e a carregou o quanto pode, mas Inacinha acabou ficando para trás e capturada. Gato voltou para resgatar a amada. Ao lado de Corisco, Português, Virgílio e Pancada invadiram Piranhas; o tiroteio foi dos maiores e Gato baleado, inutilmente, pois a mulher amada nem estava lá. Gato morreu e Inacinha, na cadeia, conheceu um novo amor.


- Um soldado de volante com quem foi viver após conseguir a liberdade.

O pós-Angico foi trágico para Delmira, de Calais, a segunda mulher do cangaceiro João Calais. O casal caiu numa emboscada urdida pelo coiteiro Totonho Preá. Calais levou um tiro na mão e se escafedeu, Delmira foi ferida no abdome, recebeu socorro, mas não resistiu ao ferimento.


No massacre de Angico, em 38, estava por lá uma cangaceira chamada Dinda, que escapou, desapareceu sem deixar rastro ou mandar notícia; Houve uma Dinha, mulher do cangaceiro Delicado e Doninha, de Boa Vista, casal que se entregou e sobreviveu.


Ninguém sabe que fim levou Dória, de Arvoredo, assim como Dulce, de Criança, que também esteve em Angico; Teve a jovem Maria do Santo, chamada de Dussanto, que viveu com Alecrim, cangaceiro que gostava de banhar-se em perfume e que por isso mereceu o apelido da erva aromática.


Chocante foi a trajetória das irmãs Eleonora e Aristéia. A primeira, casada com Serra Branca encerrou sua vida fuzilada e decapitada; Aristéia sobreviveu para contar história, falecendo aos 98 anos.


Depois do cangaço as más línguas falavam, mas não há registro sobre uma cangaceira, “amiga próxima” de Virgulino Ferreira, chamada de Eneida. Ninguém sabe se gostou ou viveu com alguém, mas sua amizade com Lampião teve cangaceiro que não esqueceu.


O cangaceiro Cobra Viva também tinha mulher e se chamava Estrelinha, e Elétrico vivia com Eufrozina e Veado Branco casou Idalina; teve Jacaré que casou Joana Gomes e esta, depois de ficar viúva, foi viver com cangaceiro Antônio de Engrácia.


Era uma sina: a moça saia de casa, era raptada ou seguia o cangaceiro amado, ficava viúva, mas não podia deixar o cangaço e voltar pra casa de mainha, pois isso significava morte certa. O melhor mesmo era se arranjar com um novo amor.


O famoso cangaceiro Sabonete, guarda-costas de Maria Bonita, tinha a sua Josefina Maria e o cangaceiro Relâmpago que gostava e vivia com uma tal Josefa Maria.


O bando de Lampião também teve uma Julinha, mulher de sangue quente e de ascendência indígena também da tribo Pankararé; não andava só e ingressou no cangaço ao lado das irmãs Catarina, Joaquina, Joana, uma Chamada Rosa e a mais nova que se chamava de Sabrina.


Dizem que faziam o tipo “eram de todos e não pertencia a ninguém”. Logo, não podiam criar raízes porque não havia vaga para solteiras no bando.


Como eram estas irmãs? Se amavam ou seguiam alguém, não há relatos, como também nada se sabe sobre uma bela cangaceira chamada Luazinha, tratada assim no diminutivo por ser mignon, biotipo de mulher pequena, bundinha empinada, seios modestos e rosto angelical.


Fotos originais de Benjamim Abraão. 1937.


Fonte: Lampião, as Mulheres e o Cangaço”, de Antônio Amaury

“Amantes e Guerreiras”, de Geraldo Maia do Nascimento