Revolta de Princesa: Marcolino resgata a amada das garras do celerado Clementino Quelé

Na guerra, a captura de um mensageiro e o consequente conhecimento dos planos do inimigo, pode significar a ruína deste e o desfecho de um combate. Foi o que aconteceu na Revolta de Princesa, em 1930, no confronto de forças entre as tropas rebeldes comandadas pelo coronel Marcolino Diniz e seu oponente, o ex-cangaceiro Clementino Quelé, agora no papel de chefe de volante a serviço do governo.

Imagem: casarão do coronel Marcolino Diniz, em Patos de Irerê(PB)


Um duelo de gigantes, envolvendo mais de trezentos homens em combate e que teve um desfecho cinematográfico. Clementino Quelé mantinha em seu poder como reféns, Dona Xandu, esposa do coronel Marcolino Diniz, a filha adotiva, além da sua sogra.


Estrategista implacável, ex-cangaceiro experiente que já havia baleado Lampião no passado e infligido baixas enormes em seu bando, Quelé neste confronto pretendia usar as reféns como escudos humanos.


O cenário do combate


A casa é imponente, atualmente está abandonada e degradada, mas faz parte de uma partícula da História do Brasil, emblemática para a historiografia do cangaço na Paraíba: trata-se do casarão do cel. Marcolino Diniz, em Patos de Irerê, Princesa Isabel(PB); já teve sótão e saídas “secretas” e, até, um campo de pelada na frente; por muitos tempo, fora um belíssimo coito de Lampião e cenário de uma batalha épica.


Em fevereiro de 1930, estoura em Princesa, um movimento rebelde liderado pelo coronel José Pereira Lima (cel. Zé Pereira) em oposição ao governo do estado chefiado por João Pessoa Cavalcanti. O estopim foi o discurso de posse de João Pessoa, prometendo campanha implacável contra cangaceiros e seus coiteiros, além de tributar na divisa produtos procedentes de outros estados.


O coronel Zé Pereira lidera a oposição e, financiado pela família Pessoa de Queiroz e pelo governo de Pernambuco, desencadeia uma Revolta contra o governo da Paraíba, prometendo tornar Princesa independente do estado. Não teve dificuldade em recrutar homens para luta, uma vez que ele, como coronel da política, manipulava a polícia, a população, além de ser coiteiro e por muito tempo amigo de Virgulino Ferreira.


Coronel Marcolino Diniz, liderou grupo de jagunços durante a Revolta de Princesa e no resgate de Dona Xandu


O coronel Marcolino Diniz, primo de Zé Pereira, e casado com dona Xandu, uma senhorinha da família Pessoa, de Pernambuco, também era coiteiro de cangaceiros e amigo de Lampião, toma à frente da ala militar da revolta.

No passado, o coronel Zé Pereira havia dado abrigo e proteção ao cangaceiro foragido de Pernambuco, Clementino Quelé, que na Paraíba é incorporado na Polícia Militar já no posto de sargento. Mas foi este ex-cangaceiro do bando de Lampião, que se insurge contra seu chefe Zé Pereira, permanece fiel a Polícia Militar do governo do estado, e que passa a liderar a repressão aos revoltosos.


Bom estrategista, frio e sanguinário, Quelé está no “olho do furação” no comando 60 soldados. Quelé, ocupa o pequeno vilarejo de Patos do Irerê e sitia a casa do coronel Marcolino Diniz, fazendo reféns.


O historiador pombalense José Tavares, reproduz um bilhete apreendido pelas tropas leais a Zé Pereira, acantonadas em Princesa Isabel, sob o comando de Marcolino Diniz. Tratava-se um uma mensagem de Quelé ao delegado de Piancó(PB).

Nas imediações de Patos de Irerê, Marcolino prendeu um soldado de nome Zeferino Ferreira, que levava um bilhete do sargento Quelé ao delegado Severino Procópio, que se encontrava em Piancó. Dizia bilhete:


“As bombas não deram bom resultado. Acho que com as mulheres que prendemos seria bom fazer o ataque de Princesa, levando elas na frente.”


As reféns simplesmente eram Dona Xandu, esposa de Marcolino, a filha adotiva e sua sogra.


O bilhete também revela o descompasso entre as tropas do governo lideradas por Quelé e os revoltosos. Clementino claramente se queixava na mensagem interceptada das granadas que falhavam, péssimo armamento, munição escassa e ruim.


Marcolino tinha sob sua liderança cem revoltosos em armas, ao saber que sua família havia sido capturada e seria usada como escudo humano por Quelé para forçar uma rendição das tropas leais a Zé Pereira, agiganta-se e marcha para cercar a sua própria casa. De Princesa, Zé Pereira despacha mais 200 homens em reforço a Marcolino.


Clementino é sitiado no casarão. O fogo começa no meio da tarde e se estende pela noite. Dentro do casarão 60 soldados entrincheirados e cercados por Marcolino e seus jagunços. Após o confronto, eis a versão de Dona Xandu, que o escritor José Tavares expõe:


Clementino Quelé, ex-cangaceiro, tornou-se sargento de polícia na Paraíba; não aderiu à Revolta de Princesa


"O combate se encarniçava e as Forças da Policia iam perdendo terreno não conseguindo vantagem alguma por estarem com a munição completamente estragada. Eles faziam pontaria, davam ao gatilho e o tiro não saía”.


Prossegue dona Xandu, “foi então que, vendo a partida perdida, os soldados sendo dizimados, o tenente Nonato deliberou abandonar as posições, o que fez depois de lançar bombas de dinamite na minha casa de residência e no muro da casa onde estávamos”.


E conclui: “O último a sair foi Clementino, que me deixou trancada e carregou a chave, tendo antes lançada uma bomba acesa no compartimento contíguo àquele em que eu estava, om o intuito evidente de matar-me."


Esse era Clementino Quelé, o sertanejo do Pajeú, que transitou entre a lei e o crime. Foi cangaceiro de Lampião e chefe de subgrupo, mas quando na posição de homem da lei, na polícia paraibana, teve protagonismo militar sem precedentes. Mas foi derrotado por Marcolino, que salvou sua esposa e filha, em um combate épico de uma Revolta que também fracassou.


Fonte de consulta: historiador Zé Tavares.

Fotos. Wikipédia

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