Tenente Zé Rufino – matador de cangaceiro exitoso e avesso a conchavos

Algumas particularidades entre alguns chefes de volantes que combateram Lampião chamam a atenção: eles conheceram pessoalmente Virgulino Ferreira da Silva.


Sanfoneiro José Osório, que se tornaria tenente Zé Rufino, implacável cabecilha de volante


Clementino José Furtado, alcunhado de "Quelé do Pajeú", foi cangaceiro e chefe de grupo de Lampião, antes de servir ao governo da Paraíba comandando uma volante famosa e extraordinária, apelidada de "Pente Fino".

João Bezerra da Silva, célebre chefe da volante que atacou Angico também conhecia Virgulino, assim como o soldado Sebastião Vieira sandes que matou Lampião.


David Jurubeba, o volante nazareno, também conheceu Virgulino de perto.


Mas talvez ninguém conheceu Lampião tão próximo quanto o sanfoneiro de oito baixos, chamado José Osório de Farias, que se transformaria, após ser convidado pessoalmente por Virgulino e recusar por duas vezes para ingressar no bando, no famoso tenente Zé Rufino.


De fala mansa e meticuloso, Zé Rufino ingressou na polícia baiana como civil contratado no posto de cabo na volante do tenente José de Almeida Mutti. Baseado em Jeremoabo(BA), o tenente Mutti conta que certa feita, ao retornar à cidade, foi consultado pelo seu chefe sobre um pedido feito pelo cabo Zé Rufino.


Queria 15 homens formar sua volante.


Mutti recomendou que o comando aceitasse a solicitação o pedido do cabo e assim Zé Rufino tomou providências para escolher “a dedo” seus homens.


Arregimentou dois cabos: Artur Figueiredo e Miguel Bezerra, também conhecido como Miguel de Contânça. Recrutou o volante Gervásio, que seria seu infalível rastejador. Agregou o soldado Leonídio – que se tornaria o cortador de cabeças de cangaceiros – e mais os soldados João Redondo e Valdemar, Besouro, Capão, João Doutor, João Severiano, Zé Serra Negra, Paulino de Belo ( Paulo de Tavinha),Ercílio Novais, Bentivi, Alípio, Zé Monteiro, Jovino Juazeiro, João Fuisso, João Venâncio, Zé Firmino de Matos.


Assim foi formada a mais implacável de todas as volantes de combate ao cangaço. Zé Rufino não perdeu tempo e começou a mostrar serviço, galgando rapidamente postos na polícia baiana.


Na sua primeira incursão como chefe de volante, matou o cangaceiro Azulão e mais dois num tiroteio rápido, após trabalho exitoso do rastejador Gervásio. Zé Rufino prova o feito exibindo as cabeças cortadas pelo soldado Delcídio. De imediato, é promovido a sargento.


Em seguida rasteja e tira de circulação o cangaceiro Mariano. E Zé Rufino vira aspirante de tenente.


Numa entrevista concedida após o cangaço, perguntado quantos cangaceiros matou durante sua jornada, Rufino separou em duas categorias: os que ele realmente matou e os que ele ordenou a execução – não soube quantificar, mas de memória citou:


- Catingueira, Meia-Noite, Sabonete, Quina-Quina, Canjica, Azulão, Zabelê, Pai Velho, Zepelim, Pavão, Barra Nova e Isadora, são os nomes que me recordo, disse Zé Rufino.


Eis que num sábado de agosto de 1937, dia de feira em Serra Negra, o tenente Zé Rufino descansava de extensa jornada ao tempo em que seus comandados tiravam folga para tomar “umas e outras”, quando surge no povoado um sujeito montado num burro castanho despertando a atenção do rastejador Gervásio, que proseava à porta do salão de sinuca.


- Oxente! Mas olha mesmo quem está por aqui, Temístocles da fazenda Queimadas, coiteiro deslavado de Lampião; essa alma quer reza... E o que danado está fazendo aqui, em Serra Negra?


O rastejador passou então a monitorar o coiteiro, que se dirigia diretamente para a residência do coronel chefe político João Maria. O desdobramento dessa visita inesperada foi imediato porque o coronel despachou um empregado para contatar o tenente Zé Rufino, pois o coiteiro queria uma conversa “pé de orelha” com o tenente.


- Sem muito arrodeio, pode falar: do que se trata? Perguntou Zé Rufino ao coiteiro Temístocles.


O diálogo se deu em linguagem quase que cifrada.


- Tenente, qual a possibilidade de um acordo razoável?


Quis saber Temístocles, deixando subentendido vantagens financeiras, segurança, e discrição naquela conversa com Zé Rufino, travada na sala de jantar de João Maria, sem ninguém por perto.


Zé Rufio abriu o flanco da conversa, deixando a entender que um acordo seria mesmo razoável para aquela guerra sem fim entre sua volante e o bando de Lampião – e adiantou suas pedras no tabuleiro da conversação.


- Qual seria o acerto? Quando e onde posso falar com o Capitão?


O coiteiro Temístocles deu as coordenadas.


- O tenente certamente deve conhecer ou já ouviu falar na fazenda Capoeira, de Julião dos Nascimento, um lugar muito bom para uma conversa sem muito alarido.


O tenente Zé Rufino apenas aquiesceu positivamente com a cabeça. Discretamente o coiteiro se retirou, o tenente ainda proseou com João Maria tomando calmamente seu café; se despediu e caminhou sem alvoroço até onde os soldados da volante estavam arranchados, olhou bem nos olhos do soldado Delcídio, seu guarda-costas, e ordenou.


- Quero toda a tropa aqui, agora! E me providencie duas metralhadoras com tudo que tiver de munição – e disparou:

-Acordo comigo? Só se for na bala!


Tenente Zé Rufino(D) e seus homens de confiança; Delcídio, sentado à frente, o cortador de cabeças


Algumas léguas distantes de Serra Negra, na fazenda Capoeira, Temístocles teve um Tête-à-tête com Lampião.

- Capitão, tudo certo, disse Temístocles a Lampião, antes mesmo de desmontar do burro.


-Tudo certo, como? Viu o homem? Conte-me toda a conversa direito, quis saber Virgulino.


- Capitão, eu vi o homem, tive uma conversa pé-de-orelha, ele se interessou por fazer um acordo com o senhor, e mandou perguntar onde e quando pode ter um entendimento reservado com o senhor.


O tenente perguntou por onde eu andava ou estava? Quis saber Lampião.


- Perguntou, Capitão.


- Você disse que eu estava aqui, na Capoeira?


Temístocles sentiu que, sem querer, havia delatado ao tenente Zé Rufino a localização do coito.


- Disse ou não disse? Insistiu Lampião.


Temístocles vacilou na resposta, gaguejou, afirmou que não havia relevado o lugar do coito, mas não convenceu Virgulino Ferreira que imediatamente deu voz de comando.


- Quinta-feira, chame os meninos, vamos levantar acampamento, mais ligeiro que depressa, já!


O tenente Zé Rufino só não cercou e liquidou com Lampião, porque o cabo Miguel, ordenança de Zé Rufino, levou tempo para reagrupar a tropa espalhada pela feira ou em casas de parentes, e por um detalhe recorrente na volante e não menos importante:


Gervásio, o rastejador, estava de pileque numa das bodegas de Serra Grande e demorou a se curar da carraspana.



Fonte de consulta: Lampião – a Raposa das Caatingas, de José Bezerra Lima Irmão.


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