Toque feminino de Maria de Déa no cangaço retratado pelos jornais e em depoimentos

Ao contrário das mulheres urbanas que precisaram se masculinizar para conquistar espaços, sobretudo profissional, ao mesmo tempo se abdicar da sexualidade; elas, as 30 mulheres (a maioria baianas) do cangaço foram, de certa forma, sagradas e transgressoras do padrão feminino no início do século XX.


João Costa


Maria Bonita em pose para o fotógrafo e jornalista Benjamim Abraão


Parece um paradoxo, mas as mulheres do cangaço não se masculinizaram, Elas sequer cozinhavam, nem se transformaram em objeto sexual de uso coletivo dos homens; vestiam saias curtas para os padrões da época, fumavam bastante e eram fissuradas em perfumes e joias. A vaidade como lenitivo na caatinga.


Vejamos o caso de Maria Gomes de Oliveira, ou “Maria de Déa”, “Maria Déa”, “Santinha”, “Maria do Capitão” ou “Maria Bonita” como o mundo a conhece, mudou a face do cangaço.


Algo intriga os pesquisadores: como se resolviam as crises conjugais no bando? O único evento que ganhou dimensão, foi o “caso Lídia e Zé Baiano. Mas há um relato bacana de uma briga entre Virgulino e Maria Bonita, coisa de estresse entre marido e mulher.


Após parir Expedita Ferreira, Maria Bonita teve que seguir o bando numa marcha forçada. A criança chorava – o que podia atrair a atenção de alguma volante. Lampião se irritou com o choro, e chegou a sugerir se desfazer da criança, antes mesmo de entregar a alguém para criar.


Maria de Déa não deixou por barato.


- “Mundiça miserável! Disgramado! E você, se cego veio da gota! Seu canela de Viado! Num ta vendo que eu não posso andar por causa da criança? Encarou Maria o temido marido.


- “Mate isso!” Foi a reação fria de Lampião.


Maria de Déa partiu enfurecida na direção do companheiro, chegando a quebrar a cabaça com água que conduzia na cabeça de Lampião. A reação de todos no bando foi uma estrondosa gargalhada.


Benjamim Abraão, Maria Bonita e Virgulino Ferreira, possivelmente no Raso da Catarina, 1936/37


A tal coisa: briga entre marido e mulher ninguém mete a cabaça. Vejam só como repórteres e pesquisadores descrevem; esta que foi a primeira mulher a entrar no cangaço de livre e espontânea vontade – e por amor. Ela já foi descrita assim:


Maria Bonita, a companheira de Lampião, que com ele morreu, tinha por nome Maria de Déa. Era uma cabocla de grande beleza, de lindo perfil, de curvas perfeitas. Nasceu na Bahia, na fazenda Malhada da Caiçara, em Geremoabo. (Diário de Pernambuco -1938).


Um ano anos, em 1937, esta manchete despertava a atenção do mundo, com uma descrição que hoje seria tomada como machista. “Maria do Capitão – Madame Pompadour do Cangaço”.


Isso a partir da reportagem de Benjamim Abraão que a conheceu e fotografou, e que a descreveu como a única pessoa que tinha influência sobre o capitão Lampião.


- Os asseclas de Lampião rendem-lhe as mais servis homenagens, tudo fazendo para o não desagrado dessa Madame de Pompadour do cangaço. Comparando Maria Bonita a Jeanne-Antoinette Poisson, Marquesa de Pompadour, cortesã francesa e amante do Rei Luís XV da França.


Relatam que Sinhô Pereira e o Padre Cícero, desaconselharam Lampião em permitir mulheres no bando. Por superstição, ou simplesmente porque a mulheres supostamente representariam um estorvo na guerra. Mas Virgulino, ao observar de longe a passagem da Coluna Prestes com mais de 700 homens e muitas mulheres deparou-se exatamente com outra realidade, que ele resolveu mais tarde copiar.


- Me dei conta que mulher não atrapalha, nem na guerra, disse Virgulino certo dia.


Lampião contribuiu para que o cangaço fosse transformado num espaço feminino.


As mulheres deram um toque de humanização ao cangaço e nenhum pesquisador esconde o fato de que mulheres como Maria Bonita e Dadá assumiram protagonismo tamanho o suficiente para dominar seus guerreiros-amados.


- Ninguém suportava Dadá, ela dominava Corisco e o Capitão maneirava muito diante de Maria de Déa.


Teria dito Zé Sereno anos depois do cangaço. Sereno é outro cangaceiro que terminou sua vida ao lado de Sila, também mulher das armas do bando de Lampião.


Corisco e Dadá, os últimos do cangaço que não se renderam, recusaram a anistia dada por Vargas


Encerremos com relatos jornalísticos sobre o massacre de Angico. “A cabeça de Maria Bonita, entretanto, é a de melhor conservadas. A mulher de Lampião não foi atingida por nenhuma bala no rosto, conservando uma fisionomia serena, mostrando ter sido, em vida, um belo tipo de cabocla nordestina, com as linhas do rosto perfeito, lábios finos e duros”.


E mais:


“Bonita ainda depois de morta, serena. E quando o público desfilava diante das cabeças expostas, muita gente se emocionou, vendo a cabeça de Maria Bonita, a sertaneja que fizera Lampião um herói ao seu modo, seu companheiro de 12 anos, enfrentando soldados e vencendo a galope as caatingas incendiadas pelos perseguidores”.


Dadá, a menina que se tornou lendária e que rivalizava com Maria Bonita, a descreveu assim:


- Bacana que só ela, só quer ser mais, disse certa vez Dadá. Nada de ciúmes, apenas coisa de mulher para mulher.

Fonte de consulta; “Maria Bonita – Entre o Punhal e o Afeto”, de Nadja Claudino

Imagens de Benjamim Abraão

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