Vamos Comer Teatro, sua primeira versão e a pressão da censura federal sobre "Tenente Benígno"

Por João Costa

Houve um período entre as décadas de 80 e 90 do século XX, exatamente a partir do ano de 1982, que o teatro paraibano viveu uma fase de muita efervescência, inovações e desprendimento, a partir de sonhos que se tornaram realidade, e que o tempo tratou de varrer de cena: a criação de um público teatral, cativo e pagante.


Imagem: em cena Marcos Montenegro, o diretor João Costa e Carlos Valério


Os diretores e atores de teatro paraibano contratados pela UFPB, Fernando Teixeira e Ednaldo do Egípto, na sequência em que criaram o Núcleo de Teatro Universitário, transformaram uma antiga sala de cirurgia da Faculdade de Odontologia em um pequeno templo para encenações: o Teatro Lima Penante.


O Teatro Lima Penante foi inaugurado em 1982 e para sua inauguração surgiu um projeto chamado Vamos Comer Teatro, que tinha como principal finalidade, criar um público teatral constante. Mas para isso precisava ter teatro, espetáculos locais. Assim, o Núcleo de Teatro Universitário recrutou funcionários da própria UFPB que atuavam no meio artístico, principalmente teatro para os seus quadros.


Para elaborar a programação inicial do Projeto Vamos Comer Teatro, Fernando recorreu à solução caseira. Ele mesmo iria dirigir o espetáculo para a inauguração, e “convocou” os servidores da casa que atuavam no meio teatral para encenarem espetáculos, tudo dentro de prazos para a grade de inauguração. E assim foi feito – e sem dinheiro público para montagens.

“A Noite de Matias Flores”, do paraibano Marcos Tavares, sob a direção do próprio Fernando Teixeira abriu o projeto. No elenco Nautília Mendonça, Oswaldo Travassos, Ednaldo do Egípto, Ubiratan Assim, Crizenite de Assis e João Costa (que fez o papel de Mathias Flores na estreia, personagem que só apareceu mesmo nesta única e escassa vez).


B em Cadeiras de Rodas


Oswaldo Travassos não deixou por menos e montou “B em Cadeiras de Rodas”, com Marcos Careca e Divison Delgado no elenco, Cenografia de José Crisólogo (já Falecido), cenário de Waldemar Duarte.


Eu também embarquei na aventura adaptei e encenei “Tenente Benígno”, de autoria de José Bezerra Filho. Ao tempo em que eu fazia teatro, também atuava no Movimento Estudantil e no Teatro que se fazia no meio universitário.


Assim, um texto que tratava de perseguição, tiroteios e tortura entre a polícia, cangaceiros e coiteiros na adaptação que fiz, o conflito não se dava entre volantes e cangaceiros, mas entre o Exército e a guerrilha do capitão Carlos Lamarca.


Como assim?


Todo o conflito da peça girava em torno de um interrogatório. No texto original, um coiteiro era interrogado para delatar o paradeiro de do capitão Virgulino Ferreira Lampião. Na minha adaptação, um militar interrogava uma família para saber o paradeiro do capitão. Detalhe: em momento algum citava o nome do capitão Carlos Lamarca, mas ele estava lá, num painel enorme no cenário ao lado de Delmiro Gouveia, Lampião e Maria Bonita.


Hércules Félix(E) no papel principal de Tenente Benígno e Carlos Valério(D)


Afinal uma narrativa de duplo sentido: Virgulino havia recebido a patente de Capitão da Forças Patrióticas do Juazeiro, em 1926, uma milícia composta por cangaceiros e militares do Exército. E Lamarca, também capitão do Exército, havia desertado para fazer a Revolução.


Consegui, não conto detalhes, fuzis reais com o comando da Polícia Militar da Paraíba. O Exército havia por aquele período adotado uniforme camuflado, o nosso figurino também.


Em 1982 a Ditadura ainda estava em vigor e caminhando para o seu fim, mas não impediu que a censura mutilasse o texto, a trilha sonora e nos obrigasse a fazer dois ensaios gerais para eles, até o espetáculo obter autorização para apresentação.


O primeiro ensaio para a Censura ocorreu na Juteca. Os censores cortaram parte da trilha sonora e se recusaram a liberar, transferindo a responsabilidade para o censor-chefe. A peça abria com um militar estuprando a jovem filha do coiteiro, ao som da Voz do Brasil, que noticiava a viagem do ditador da época, general João Figueiredo a Cleveland(EUA) para fazer uma cirurgia; e os censores da Polícia Federal queriam saber como fuzis reais estavam sendo usados na encenação.


Me levaram para a PF onde expliquei, mas não convenci “doutor” Pedro Fernandes, o censor-chefe, que a própria PM havia nos cedido as armas; ele marcou novo ensaio geral que ocorreu numa quarta-feira, a peça estreava na quinta-feira.


Esse dito ensaio-geral para a Censura, no palco do Lima Penante, foi uma amostra grátis que a PF fez do seu poder de censura. O próprio censor-chefe estava lá.



- Se você pensa que somos idiotas, não somos; a peça não cita nomes, mas sabemos do quê e de quem se trata. Não pode citar o nome de Lamarca, o painel com ele sai e eu libero a peça, disse Pedro Fernandes.


Eu recusei. Disse que o texto já havia sido mutilado demais, a trilha sonora cortada e o painel não íamos tirar.


- Se você não tirar Lamarca, nós mesmos fazemos isso, disse o censor-chefe e dois agentes federais subiram no palco e arrancaram Lamarca do cenário.


Foi a nossa participação no Vamos Comer Teatro.


Tenente Benígno, texto de José Bezerra Filho, direção de João Costa. Elenco: Marcos Montenegro, Hércules Félix, Carlos Valério, Maristela Carvalho Porto e Lena.


Elpídio Navarro, de saudosa memória, era editor de Cultura de O Norte, salvo engano. E ele sapecou lá: “Lamarca é preso no Lima Penante, mesmo depois de morto”.


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