Volantes do sargento Guedes/David Jurubeba e o espinho no olho que não enxergava de Lampião

Imagem uma guerra sem quartel, como a travada entre as volantes militares e Lampião com seu bando, tendo como meios de comunicação apenas o mensageiro, a carta ou bilhete e o telégrafo. Agregue à essas limitações comparadas ao dia de hoje aos relatos orais, e aí teremos um componente maravilhoso para o conto: a interpretação; coisa que desagrada a historiadores e aficionados pela verdade dos fatos, que não foram tão verdadeiros assim.


Imagem: cena da peça "Quem Foi Que Inventou o Brasil"


Vejamos que relato espetacular dado por um soldado da volante do tenente Higino, David Gomes Jurubeba, veterano combatente da volante que se originou em Nazaré do Pico(PE), terra de inimigos de Lampião e lugar onde Virgulino viveu praticamente sua adolescência e juventude.


Logo após a morte do seu irmão Livino Ferreira, baleado em tiroteio com a volante paraibana do sargento José Guedes, Lampião não teve sossego, acossado que foi pelas volantes da Paraíba e pelos nazarenos, de Pernambuco, força da qual Jurubeba integrava e se destacou.


O coito de onde Livino e seus homens resistiram ao assédio da polícia e depois fugiram, agora está ocupado pelo sargento José Guedes e seus comandados, que relaxam, imaginando uma longa trégua. O dia amanhece e o sargento Guedes e seus homens, já estão sobre as alpercatas em preparativos para novas diligências.


Volante paraibana comete erro de ocupar coito


Apoderar-se do coito (uma casa de taipa) onde os cangaceiros no dia anterior estavam entrincheirados foi um erro militar. O café da manhã da volante foi bala.


Do lado de fora, estoura o pipocar dos tiros; a volante paraibana estava cercada. O recrudescimento do combate leva à escassez de munição. O sargento Guedes é bafejado pela sorte, um morador do lugar de nome Pedro Benedito se oferece como mensageiro e é despachado às pressas para o município de Flores em busca de ajuda.


Formação do bando de Lampião que atravessou o rio São Francisco mudando-se para o estado da Bahia


A sorte mais uma vez está do lado do sargento Guedes. O mensageiro, pouco tempo depois de romper a emboscada armada por Lampião e seus cabras, se depara com a volante de Higino Belarmino, informa sobre a enrascada em que se metera a volante paraibana, o que faz Higino apressar o passo engatilhando suas armas.


Dentro da casa cercada, Guedes e sua volante resistem como podem. Um soldado agoniza gravemente ferido, a tropa economiza nos disparos.


Mas o que se escuta momentos depois é o aumento do pipocar dos tiros com a chegada providencial da volante dos nazarenos e a debandada dos cangaceiros e geral e atabalhoada.


David Jurubeba, em relatos para resgate da memória, deu a sua versão para o combate.


- “Nós continuamos a avançar em buscas de rastros, em dado momento perto de umas pedras, os cangaceiros nos emboscaram e novo tiroteio”.


A situação se invertera, mas Virgulino e seus cabras não levavam a melhor:


-“Lampião estava escondido atrás de umas moitas de xique-xique e começou a atirar em mim e me provocar, dizendo aquelas matraquices de sempre. Era tiro de lá, tiro de cá, quando, pela primeira vez, pela voz, identifiquei mais ou menos o lugar onde Lampião estava escondido, atirei justo naquela direção”, conta David Jurubeba para acrescentar em seguida.


-“A bala atravessou umas touceira de xique-xique, e estoura uns pés de palma que ele usava como esconderijo, espalhando espinho pra todo o lado. Um deles atingiu, segundo eu soube depois, o olho direito de Lampião, que não era bom”, recorda

Jurubeba, o velho combatente nazareno.


Ex-soldado da volante dos Nazarenos, David Jurubeba, inimigo pessoal de Virgulino Lampião


De fato, Lampião já amargava um progressivo glaucoma no olho direito, usava óculos pra amenizar o impacto da claridade do Sol e o tiro certeiro de Jurubeba na touceira de espinhos cegou de vez o olho direito de Virgulino.


O mês de julho segue sem sossego para nenhum dos lados. O clima de açodamento toma conta das volantes paraibanas agora motivadas pelo governador da Paraíba, João Suassuna, que estabelece um prêmio de 10 contos de réis pela cabeça do “cego” Virgulino Lampião.


Mas Lampião se escafede no ôco do mundo, ou melhor: o bandoleiro segue para seu Spa preferido, quando precisava de um coito seguro: Saco dos Caçulas em Patos de Irerê(PB), do coronel Marcolino Diniz.

Nas feiras livres poetas e repentistas reportam a guerra ensandecida dos nazarenos e das volantes paraibanas contra Lampião.


Suassuna em Paraíba,

Parece que viu o cão,

Dá dez contos a quem matar

Virgulino Lampião.


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Fonte: “Lampião - Memórias de um Soldado de Volante”, de João Gomes de Lira

“Lampião na Paraíba – Notas para a História”, de Sérgio Augusto de Sousa Dantas.


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