Volantes paraibanas e nazarenas botam pressão e Lampião passa acocho

João Costa

Por volta de setembro de 1925, o sargento Clementino Quelé se encontrava imobilizado numa cama, enfermo e com muita febre, quando foi informado que seu irmão Quintino Quelé, soldado da volante paraibana de combate ao cangaço comandada pelo sargento José Guedes, tombara morto a tiros de rifles e Guedes afastado do comando porque também estava baleado.

Imagem: artesanato de Serra Talhada


Clementino Quelé, que respondia pela alcunha de “Tamanduá Vermelho”, apelido este dado pelo próprio Lampião no tempo em que Clementino esteve no cangaço, ignorou as ponderações, arrumou seus apetrechos, limpou suas armas, ajeitou muita munição nos bornais e mesmo se “queimando de febre” partiu no encalço de Lampião e seu bando, mais uma vez.

Na sua trajetória de combate ao cangaço, Clementino travou mais de vinte combates com Lampião em cinco anos de entreveros sucessivos.


Nessa arrancada, atravessou a divisa e ao chegar no lugar Abóbora, em Pernambuco, Clementino e sua volante se viram encurralados numa emboscada, armada por Lampião à frente de mais de trinta cangaceiros – e o tempo se fechou com o pipocar dos tiros.


- Tamanduá Vermelho procurou e encontrou a morte certa, xingava Lampião.


- De hoje você não passa, Virgulino; vai me pagar o atual e o atrasado, retrucou Clementino Quelé.


A seu lado logo tombou um soldado de nome Joaquim Pereira, o tiroteio aumentou de intensidade e Virgulino resolveu abandonar o campo de luta e se enfurnar pelas caatingas do Riacho do Navio, seu território de atuação preferido.


Não teve sossego; as volantes nazarenas estavam se reagrupando e de tanto açoite, escaramuças e tiroteios, Lampião retorna à Paraíba. Acossado em Pernambuco pelos nazarenos e assediado na Paraíba por Clementino que não dava trégua, Virgulino e seu bando “mergulham” em silêncio por alguns dias pulando de coito em coito sem se demorar.


O cangaceiro Passo Preto, muito tempo depois, revelou que nesse período, Virgulino agia feito cobra: dormindo tarde e acordando cedo, murmurando com os mais chegados “terríveis pressentimentos” porque as baixas só aumentavam, que “Tamanduá Vermelho” era um tormento e os nazarenos uma praga.


Volante do ten. Zé Guedes e do sargento Clementino Quelé com atuação na Paraíba e em Pernambuco


A estratégia adotada foi a de a todo custo evitar confronto com a volante paraibana; Lampião surgia e desaparecia das fazendas e vilas feito um relâmpago e passou a demorar pouco nos esconderijos.


- “Tô com mau presságio, Tô evitando o combate, mas não vai ter jeito, a volante do Clementino está no nosso encalço”, dizia Lampião.

Virgulino então tomou uma decisão: parar de fugir e esperar por Clementino. Dito e feito; não tardou e o “Tamanduá Vermelho” apareceu com sua volante numa fúria apavorante para o combate sangrento.


O tiroteio foi cerrado com xingamentos de parte a parte; tanto atiravam quanto gritavam e logo no início da refrega, dois cangaceiros tombaram varados a tiros de rifle, mais dois ou três feridos.


Temendo pelo pior, Antônio Ferreira, em meio ao fogo, dirigiu-se ao irmão.


- Dois mortos e tem uns três feridos, hora de romper e escapulir, foi a advertência.


- Prejuízo é muito e esperado; volte por seu ponto de tiro e sustente o fogo, que eles arreglam, foi a resposta de Lampião.

Virgulino estava certo. De repente silêncio por parte da volante, que havia abandonado o teatro de guerra.


Mas e Clementino Quelé?


Recuou para dentro do território paraibano, municiou a tropa e retornou ao campo de batalha, mas com outra tática.


Numa espécie de recado a Virgulino e seus irmãos, o sargento Clementino Quelé, que queria a todo custo vingar a morte do irmão, percorre o Pajeú e a região do Riacho do Navio espancando coiteiros, informantes e nessa cavalgada vai até Nazaré do Pico, ao encontro dos nazarenos para confabular e explicar o que pretendia sua volante por àquelas bandas.


- Quero varrer a bala dessa região todo aquele que for parente de Virgulino, amigo ou coiteiro, disse Clementino


- Clementino, sua vontade de pegar Lampião também é a minha, mas os parentes de Virgulino que moram por aqui, em Nazaré, não têm nada ver com o bandoleiro, são gente de paz e de bem, foi a resposta de Euclides Flor, um dos mais destacados cabecilhas das volantes nazarenas.


Sargento da volante paraibana Clementino Quelé, ex-cangaceiro e chefe de subgrupo de Lampião


Quelé não gostou muito do ouviu e retirou sua tropa em marcha forçada de volta à Paraíba, sem esconder descontentamento. Mas avisa que vai sangrar coiteiros pelo caminho, e segue rumo à propriedade de Raimundo Nogueira Paz, conhecido como Nogueira do Pico, que ele julgava ser coiteiro de Lampião.


Virgulino Ferreira, Lampião, em foto exclusiva para o libanês Benjamim Abraão, em 1937


Nogueira do Pico passou grande aperto, mas foi salvo por intervenção de David Jurubeba, um combatente nazareno que interveio, esclareceu que Raimundo não era coiteiro e que a morte dele colocaria os nazarenos em rota de colisão com Clementino e sua volante.


- Diante dessa situação que ninguém sabe quem é inimigo ou amigo, quem pode morrer, quem não pode porque é protegido, o jeito é voltar para Paraíba de mãos vazias, disse um macambúzio Clementino Quelé por perder a oportunidade de vingar a morte do irmão Quintino.

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Fonte: Lampião – Memórias de Um Soldado de Volante, Vol I. de João Gomes de Lira

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