Zé Maranhão, ex-governador morto pela Covid-19, deixa legado ao transitar entre esquerda e direita



João Costa

Zé Maranhão é o segundo ex-governador da Paraíba levado pela Covid-19 – o vírus cuja letalidade o atual regime ignorou, grande parcela da Nação negou e ainda nega, segue ceifando vidas de centenas; dezenas a cada dia. Zé Maranhão foi tirado de combate pelo vírus num dia de eleição.

Imagem: Victor Paiva(E), Nilvan Ferreira, Adelson Barbosa, José Maranhão e João Costa.

A trajetória política de Zé Maranhão começa pelo PTB, fez voo de longo percurso no PMDB, em resistência à Ditadura Militar, que o cassara, para encerrar essa travessia política, de forma “pragmática” nos braços do fascismo em 2016 quando apoiou o golpe contra a democracia e se associou ao fascismo em 2020, num “abraço de afogados” com o atual regime.

Como profissional, o entrevistei dezenas de vezes. Acompanhei de perto como repórter alguns momentos políticos em que Maranhão era o protagonista; em que seus passos eram seguidos por nós, repórteres, ávidos por uma declaração que resultasse em manchete.


Zé Maranhão contracenou no teatro político paraibano vivendo papeis que se invertiam a cada ato: ora herói, ora vilão, dependendo do olhar dos participantes do “pastoril mais que profano” que é a luta e manutenção do poder na Paraíba.

Foi governador da Paraíba três vezes, embora tenha vencido apenas uma eleição. Como isso foi possível?


Chegou ao poder sucedendo por morte ao governador Antônio Mariz, seis meses após a posse. Como governador de fato, ganhou direito a disputar a eleição seguinte em que venceu o advogado Gilvan Freire; depois perdeu a eleição disputada com seu arqui-rival Cássio Cunha Lima, que governou por dois anos para ser cassado por condutada vedada, abrindo caminho para Zé Maranhão voltar ao Palácio da Redenção para nova governança.


Desconheço atos de perseguição de Maranhão a jornalistas críticos do seu governo – pelo menos na parte que me toca. Recordo de um fato:


Uma ação de paternidade foi movida contra Maranhão, que perdeu e teve que reconhecer a paternidade de uma filha que tivera com uma assessora de Palácio. No dia seguinte em que a decisão judicial foi tornada pública, lá estava eu numa entrevista campal em frente ao Palácio da redenção.


De chofre, perguntei sobre o desfecho da ação e a resposta foi curta e direta.


-“É filha minha e que a amarei - e está encerrado o assunto”.


No dia seguinte, fui despachado pelo WSCOM para acompanhar a comitiva do então governador Roberto Paulino na inauguração da Barragem de Acauã. Uma enorme carreata saiu da Granja Santana. A imprensa toda e alguns políticos num mesmo ônibus – Zé Maranhão estava a bordo.


Imaginava eu estar vivendo uma saia justa no ninho do PMDB. Ali, olho no olho, Maranhão foi direto ao ponto.

-Você estava no seu papel em perguntar, eu é que não esperava pela pergunta.


Claro. A imprensa toda mantinha silêncio sepulcral sobre o assunto.


A última entrevista que fiz com Maranhão, integrava a bancada do Correio Debate. Ele, Maranhão, candidato a prefeito de Joao Pessoa, de novo.


E essa era minha pauta: o que movia o senador, já longevo, de idade incerta até para registros jornalísticos, ser candidato a prefeito?


O político de Araruna foi, como sempre, elegante na resposta e lúcido nos argumentos. Maranhão sempre estava jogo.

Lembro de Maranhão em disputas políticas memoráveis ao lado de Lula e Dilma, ou na “guerra fria” com Ronaldo e Cássio Cunha Lima.


Ex-governador Zé Maranhão durante uma das concorridas entrevistas no auge do conflito com Cássio Cunha Lima


No dia em que a Assembleia Legislativa fastou Cassio Cunha Lima o clima estava tenso. Cabia ao presidente da AL, Artur Cunha Lima, parente do governador cassado e naquele momento governador interino, transmitir o cargo.


Maranhão deixou o plenário da Assembleia, caminhou até o Palácio atravessando a praça numa cidade às escuras e abandonada pelo policiamento. O séquito de Zé Maranhão estava legalmente tomando de assalto o poder para mais um período de governança.


Foi um político respeitável e de boa governança para o estado. Pena que tenha encerrado sua trajetória política abraçado ao fascismo.


Opinião

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