Zé Rufino pede perdão a Dadá: "tem o meu perdão, mas você sabe que matou Corisco de emboscada"

João Costa

A trajetória de vida de Sérgia Ribeiro da Silva, famosa no cangaço com o apelido de Dadá de Corisco, reflete o conturbado processo de empoderamento da mulher numa sociedade rural e patriarcal, uma vez que a sua entrada no bando se deu ainda menina e que sequer havia menstruado; Dadá fora raptada por Corisco, e rapto de mulheres, consentido ou não, era algo recorrente.


Sérgia teve uma trajetória violenta, trágica e lendária. “Menina de 12 anos e virgem”, ela conta que sofreu violenta hemorragia na primeira relação. Ficou traumatizada, física e mentalmente. Criou aversão pelo seu raptor, passou a evitá-lo. Dia seguinte, corpo dolorido, febre e calafrio, é obrigada a seguir viagem. Ao entardecer, chegam à casa de uma tia de Corisco, dona Vitalina”.

Imagem: Sérgia Ribeiro, a Dadá, companheira de Corisco


-“Abenção, minha tia”, foi a saudação do cangaceiro, que vai direto ao assunto.


- “Quero deixar a menina com a senhora, para que cuidem da saúde dela. Sigo viagem, mas volto em breve”, comunica Corisco, que deixa dinheiro e parte caatinga à fora.


Esta situação em “cativeiro” durou três anos, com Corisco a visitando várias vezes. Nessas ocasiões, o cangaceiro a presenteava com cortes de panos, perfumes, joias e dinheiro. O tempo todo buscando agradar a menina Dadá, que pelo cangaceiro desenvolveu sentimento arredio, e na presença do cangaceiro seu comportamento se alterava: tornava-se desconfiada e retraída.


A relação de Dadá e Corisco, que começara brutal, transforma-se com o tempo. Raptada aos 12 anos, acaba sendo levada da casa dessa tia de Corisco para o coito do bando. Começa então, a sua vida nômade, enfrentando tiroteios e fuga, seguindo Corisco, que era o segundo homem na hierarquia do bando. O tempo transformou a menina indefesa, que foi apresentada ao bando ainda segurando uma boneca, em amante, depois companheira de jornada e mãe; uma relação que não a impediu de ter filhos.


Corisco e Dadá (em início de gravidez) no Raso da Catarina; o cangaceiro era o segundo no comando e chefe de grupo


Com a chegada dos filhos (foram sete) e em meio à guerra sem fim entre cangaceiros e volantes, Corisco e Dadá se casam. Ao contrário das demais cangaceiras que não combatiam, Dadá tinha boa pontaria, atitudes impositivas e a mão certeira no rifle. Por conta desse temperamento, “não se afinava muito com Maria Bonita, a mulher do chefe”.


Mas a mão que atirava era a mesma que bordava. Todos os que sobreviveram ao cangaço, confirmam ter sido Dadá ao lado de lampião a co-autora da estética do Cangaço inovando os bornais com florais coloridos e colocando estrelas de cinco pontas (signo de Salomão) em todos os adereços, moedas, fitas e chapéus dos cangaceiros.


Em 1939 com Lampião já morto, Dadá assumiu literalmente o comando do grupo de Corisco uma vez que seu companheiro fora ferido num tiroteio com as volantes ficando aleijado, sem condições de pegar em armas, ou mesmo comandar. Para agravar a situação, Corisco havia mergulhado no alcoolismo.

Num mundo governado por homens em guerra, Dadá tornou-se imperativa diante de Corisco fragilizado, mas ainda destemido

- Em confronto ele se superava, atirava correndo de lado com o fuzil apoiado no braço; não podia mais rodopiar, saltar ou agachar-se, movimentos que o tornava no “Diabo Loiro”, recorda Dadá

E Dadá saiu-se bem, o que causava constrangimento a cangaceiros veteranos, que não assimilavam o fato de uma mulher em posição de comando. Sabe-se que Dadá influenciou Corisco na decisão de não se entregar – ela praticamente o impediu de depor as armas diante da anistia oferecida pelo Governo Vargas.

Dois anos após o massacre de Angico, a implacável volante do tenente Zé Rufino, localiza Corisco, Dadá, uma menina, Rio Branco e a companheira deste em fuga para o estado de Minas Gerais.

Surpreendido e incapaz de manejar um fuzil, Corisco novamente é ferido de morte, bem como Dadá que levou uma rajada de metralhadora. Sobreviveu. Corisco não resistiu e morreu, tendo alí sua cabeça cortada. Rufino poupa a vida de Dadá, que segue presa. Diante das poucas condições de higiene a perna ferida teve que ser amputada.

Corisco, o "Diabo Loiro", ao ser metralhado, estava aleijado e não tinha condições de segurar um fuzil ou mosquetão


Presa e conduzida para Salvador, ainda no hospital, Dadá foi “cortejada”, e assumiu um relacionamento com um novo companheiro, homem pacífico, que aceitava e respeitava seu passado. Uma nova família em tempos de paz, mas uma mulher inconformada com a humilhante exposição da cabeça do amado no Instituto Nina Rodrigues

O caráter de Dadá não arrefeceu após o cangaço. Pelo contrário, brigou na Justiça para ter o direito de obter a cabeça de Corisco, exumar os ossos de Corisco, lavá-los e dar um enterro decente ao lendário Cristino.

Dadá ainda viveu momentos de intensa adrenalina. Em um determinado momento de sua vida, 28 anos após seu último combate, a revista Realidade organizou e realizou um encontro entre Dadá e seu algoz, o implacável tenente Zé Rufino.

Em 1968, Dadá foi ao encontro de Rufino já na velhice. Ele, convalescendo e à beira da morte, chora ao pedir perdão a Dadá. Disse que não “queria ter matado Corisco, tudo ocorrera devido ao combate”. Ela concede o perdão a Zé Rufino, mas não se furtou em dizer, quase sussurrando ao ouvido de Rufino moribundo.

- “Perdoo-o, mas você sabe, mais que ninguém, que foi uma emboscada”. Pano rápido.


Fonte: Recortes de jornais

Imagens: de Corisco e Dadá, feitas pelo libanês Benjamim Abraão


“Gente de Lampião: Dadá e Corisco”, de Antônio Amaury de Araújo (2003)

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